Histórias que Definem um Patrimônio
Neste dia 27, o Complexo do Ver-o-Peso, um verdadeiro cartão-postal de Belém, completa 399 anos, reafirmando sua posição como a maior feira ao ar livre da América Latina. Este espaço, onde diariamente cerca de 20 mil pessoas se encontram, é muito mais do que um local de comércio; é um entrelaçamento de histórias de vida, trabalho e afeto. A feira, que já foi um lugar simples, cresceu e se tornou uma engrenagem social vital para a comunidade, atraindo tanto visitantes quanto trabalhadores que dedicam suas vidas a esse espaço.
Um dos rostos que personificam essa conexão é o de Marcielo Leal Sagica, de 51 anos, conhecido como Marcelo. Desde pequeno, ele acompanha sua mãe nas madrugadas na feira. “Eu vim com 7 anos pra cá com a minha mãe. A feira era atrás do mercado de peixe, e a gente montava tudo ali pra começar a vender”, recorda. Essa rotina, embora cansativa, moldou não apenas a vida de Marcelo, mas de muitas famílias que veem o Ver-o-Peso como uma extensão de suas casas, um lugar onde crescemos, formamos laços e construímos redes de apoio que atravessam gerações.
Um Espaço de Trabalho e Alegria
Ainda que a jornada diária comece cedo, por volta das 4 horas da manhã, o ambiente do Ver-o-Peso respiram alegria e descontração. “Tem gente que nem vem trabalhar, mas vem só pra estar aqui. Se não tiver a brincadeira, não existe o Ver-o-Peso”, afirma Marcelo, que além de vender temperos e café da manhã, compartilha esse espaço especial com sua esposa, Tânia Sagica. Para muitos, o ambiente serve como um antídoto contra as dificuldades da vida. “Parece que o Ver-o-Peso é um remédio”, destaca o feirante.
Raimunda Lima, carinhosamente chamada de “Dona Dica”, também faz parte dessa história. Aos 83 anos, ela é uma presença constante no local há 40 anos, vendendo farinha e goma. “Aqui a gente vê muita gente, conversa, faz amizade. Eu gosto de estar aqui. Melhor do que ficar em casa”, diz, com um sorriso no rosto. A sua rotina começa cedo, e mesmo após décadas de trabalho, o entusiasmo pelo que faz ainda é visível.
Apelidos e Identidade
No Ver-o-Peso, os trabalhadores muitas vezes são conhecidos por apelidos que contam histórias e refletem personalidades. Marcelo, por exemplo, é uma forma abreviada de seu nome verdadeiro, Marcielo. “O pessoal começou a me chamar de Marcelo porque achava mais fácil. E ficou”, explica. Essa dinâmica é tão comum que, muitas vezes, encontrar alguém pelo nome verdadeiro é um desafio, acrescido da tradição de receber nomes que muitas vezes surgem de situações engraçadas ou características marcantes.
José Edmilson Leão Andrade, ou “Bambolê”, tem 73 anos e trabalha na feira há 50. “Ninguém me conhece pelo meu nome. Só pelo apelido”, conta, rindo. Sua história se entrelaça com a da feira, onde começou a trabalhar ainda jovem, seguindo os passos do pai. Ele também vende temperos e destaca que o Ver-o-Peso é a base de tudo que construiu na vida: “Tudo que eu tenho veio daqui. Meus filhos se formaram com o que eu ganhei aqui. O Ver-o-Peso é tudo pra mim”.
Um Patrimônio Cultural
A importância do Ver-o-Peso vai além das histórias pessoais. Em 1977, a feira foi reconhecida e tombada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), refletindo sua relevância cultural, social e arquitetônica. Fundado em 1627, o espaço evoluiu para um complexo que inclui mercados e áreas gastronômicas, tornando-se um ponto de referência não apenas para Belém, mas para toda a Amazônia.
Diariamente, segundo dados da Secretaria de Desenvolvimento Econômico (Sedcon), cerca de 20 mil pessoas circulam pelo complexo, que inclui barracas, lojas, restaurantes e até embarcações que atracam na famosa Pedra do Peixe. O Ver-o-Peso é, sem dúvida, um microcosmo que representa a diversidade e a riqueza cultural de Belém, um lugar onde a vida pulsa em cada conversa e cada interação, reafirmando que, mais do que um mercado, é um verdadeiro espaço de vida.
