Crescimento Imobiliário em Belém
Belém se destacou no cenário nacional ao registrar a segunda maior valorização imobiliária do Brasil nos últimos 12 meses, com um aumento de 13,43%. O ranking é liderado por Fortaleza, que obteve 13,46% de valorização, conforme dados do Índice FipeZAP. Contudo, esse crescimento vem acompanhado de um fenômeno preocupante: a predominância de lançamentos de imóveis de luxo, que saltaram de 12,50% em 2023 para impressionantes 42,90% no quarto trimestre de 2025, de acordo com o Censo Imobiliário da Brain Inteligência Estratégica. Essa concentração em empreendimentos de alto padrão impossibilita muitos moradores de encontrarem opções acessíveis, obrigando uma parcela significativa da população a se deslocar para áreas periféricas da capital paraense.
Foco em Empreendimentos de Luxo
A razão por trás do crescimento dos imóveis de luxo está diretamente relacionada ao alto custo dos terrenos em regiões centrais. Bruno Mileo, diretor de edificações do Sindicato da Indústria da Construção Civil do Pará (Sinduscon-PA), explica que o valor elevado dos terrenos, somado a outras despesas como obras e impostos, torna inviáveis projetos voltados para moradias de baixo e médio padrão. “Os custos envolvidos tornam-se insuportáveis para a viabilidade de empreendimentos que não sejam de médio ou alto padrão nas áreas mais centrais de Belém”, afirma Mileo.
Além disso, o Índice de Velocidade de Vendas (IVV) médio na cidade ficou em 17,90% no último trimestre de 2025, para o segmento de residências verticais. Nos bairros mais valorizados, como Nazaré, Umarizal e Batista Campos, o preço médio do metro quadrado atingiu R$ 11.861, representando um aumento de 13,20% em relação ao ano anterior.
Desafios Urbanos e Gentrificação
Dr. José Júlio Lima, professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal do Pará (UFPA), alerta para um processo de gentrificação acelerada na cidade. Segundo ele, os projetos imobiliários de alto luxo estão substituindo construções históricas em bairros como Umarizal e Nazaré, atraindo o interesse das incorporadoras. “As novas ofertas de luxo são parte de um processo de gentrificação. Empreendimentos de alto padrão estão progressivamente substituindo um rico casario histórico, que, devido à falta de manutenção, acaba sendo vendido para novas incorporações”, destaca.
Lima também observa que a população que não consegue arcar com os altos preços dos imóveis é forçada a se mudar para a região metropolitana, gerando uma dependência do sistema de transporte público para o deslocamento diário em busca de emprego. O especialista critica ainda a falta de utilização de instrumentos constitucionais, como o Solo Criado, que poderiam ajudar a mitigar a situação.
Implicações Ambientais
Outro aspecto preocupante abordado por Lima é o impacto ambiental resultante da verticalização, que acarreta a impermeabilização do solo e agrava os problemas de alagamento na cidade. Ele ressalta que muitos condomínios têm pavimentado toda a área dos lotes, reduzindo a infiltração de água em regiões que ainda possuem vegetação. “Essas questões precisam ser tratadas com responsabilidade, envolvendo tanto a atuação privada quanto pública em relação à preservação ambiental nas áreas críticas da cidade”, conclui o professor.
A Redação Integrada de O Liberal entrou em contato com a prefeitura de Belém para discutir a concentração de lançamentos de luxo e as medidas para democratizar o acesso à habitação, mas não obteve resposta até o fechamento desta edição. O Conselho Regional de Corretores de Imóveis (Creci Pará) também foi consultado, mas não respondeu aos pedidos de informação.
Dados do Mercado Imobiliário em Belém
- Valorização em 12 meses (índice FipeZAP): 13,43% (2ª maior do Brasil)
- Aumento nos lançamentos de luxo (2023-2025): de 12,5% para 42,9%
- Preço médio do m² em bairros nobres: R$ 11.861
- Variação anual de preço no centro: 13,2%
- Índice de Velocidade de Vendas (IVV) geral: 17,9%
- Oferta final de imóveis (dez/2025): 2.039 unidades
Fontes: Índice FipeZAP e Censo Imobiliário (Brain Inteligência Estratégica, em parceria com o Sinduscon-PA e a Ademi-PA).
