Tecnologia para Cultivo Espacial
O Brasil, já reconhecido como um grande produtor agrícola, pode estar prestes a dar um salto significativo em sua capacidade de cultivar alimentos. Pesquisadores brasileiros estão desenvolvendo plantas que têm o potencial de crescer no espaço, uma inovação que pode ser crucial em um mundo que enfrenta desafios alimentares crescentes devido às mudanças climáticas.
Essa pesquisa é parte do programa Artemis, que recentemente concluiu sua segunda missão tripulada à Lua, com o retorno de quatro astronautas. A iniciativa brasileira visa estabelecer “fazendas” no espaço para fornecer alimento a astronautas em futuras missões. A Rede Space Farming Brazil, liderada pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) e apoiada pela Agência Espacial Brasileira (AEB), conta com a colaboração de 22 instituições científicas.
A proposta inclui a criação de “superplantas” por meio de variabilidade genética, focando em aumentar a produtividade, resistência e valor nutricional das culturas, ao mesmo tempo que se busca uma maior eficiência no uso de água e energia.
Foco em Plantas Resilientes
Os primeiros testes do projeto selecionaram batata-doce e grão-de-bico por suas características de resistência, precisando de menos água e calor em comparação a outras culturas. Ao longo do desenvolvimento, a ideia é incluir outras espécies, incluindo aquelas utilizadas na produção de medicamentos e fibras.
A pesquisadora da Embrapa, Alessandra Fávero, que lidera a pesquisa, destaca que a adaptação dessas plantejas permitirá a seleção de novos genótipos que respondam melhor às condições climáticas adversas que se esperam nas próximas décadas. “Estamos simulando artificialmente o que se prevê para o futuro em relação a temperatura e outros fatores ambientais”, afirma.
Essas plantas terão um papel vital em áreas vulneráveis à crise climática, tanto em centros urbanos quanto em regiões rurais distantes. “É uma estratégia para auxiliar na segurança alimentar das populações locais”, complementa Fávero.
Desafios da Cultivação Espacial
Um dos maiores obstáculos enfrentados pelos cientistas é a necessidade de desenvolver um invólucro que proteja as plantas da radiação ionizante cósmica. O espaço, longe de ser um vazio absoluto, está cheio de partículas que podem danificar a matéria viva, tornando a criação de um ambiente propício ao cultivo extremamente desafiadora.
Para isso, foram realizados testes em laboratórios brasileiros. Um dos experimentos notáveis ocorreu no Habitat Marte, na Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), onde mudas de tomate foram cultivadas utilizando sistemas hidropônicos e aeropônicos, sem solo.
No mês de abril de 2025, a Rede Space Farming Brazil enviará sementes de grão-de-bico e batata-doce em um foguete da Blue Origin, pertencente ao bilionário Jeff Bezos, onde as sementes ficarão expostas à microgravidade por cinco minutos para análise genética posterior. Em agosto, outras espécies como morangos e orquídeas também foram enviadas para a Estação Espacial Internacional (ISS).
O cronograma da pesquisa prevê uma primeira fase de cinco anos de simulações na Terra, seguida por testes em órbita terrestre e, posteriormente, experimentos no espaço profundo, como na Lua.
Outras Iniciativas Espaciais Brasileiras
Além da agricultura espacial, o Brasil também se prepara para sua primeira missão lunar, desenvolvendo o SelenITA, um nanossatélite que irá orbitar a Lua e explorar seu polo sul, coletando dados sobre campos magnéticos e relevo. O lançamento do SelenITA está previsto para a próxima fase do programa Artemis, em 2028, e as informações obtidas serão fundamentais para futuras missões tripuladas.
O projeto é uma colaboração entre o Instituto de Tecnologia Aeronáutica (ITA), a AEB e a NASA. A Força Aérea Brasileira (FAB) afirma que os estudos do SelenITA podem impactar áreas como sistemas espaciais, navegação orbital e engenharia de energia.
A Importância da Participação Brasileira no Programa Artemis
A adesão do Brasil ao programa Artemis, formalizada em 2021, estabelece protocolos de intenções entre nações para a exploração pacífica do espaço, principalmente da Lua e Marte. De acordo com o astrofísico Gabriel Rodrigues Hickel, da Universidade Federal de Itajubá (Unifei), “a participação do Brasil no Artemis pode não trazer benefícios imediatos, mas os avanços tecnológicos poderão ser aproveitados a médio e longo prazo”.
Ele conclui que a pesquisa da Embrapa pode resultar em cultivares mais produtivas não apenas para o ambiente espacial, mas também para terrenos áridos e menos férteis na Terra. Assim, a exploração espacial pode ajudar a resolver desafios agrícolas enfrentados localmente.
A AEB ressalta que as iniciativas espaciais do Brasil são pautadas pelo multilateralismo, estabelecendo parcerias com países como os Estados Unidos e a China. Em relação ao futuro, as prioridades incluem a modernização da frota de satélites, garantir acesso autônomo ao espaço e fortalecer centros de lançamento, com ênfase no Centro de Lançamento de Alcântara, que busca se tornar um polo comercial competitivo.
