Impactos Econômicos Diretos
Ainda que geograficamente distante de conflitos armados, o povo paraense está sentindo na pele os efeitos da guerra, especialmente no que se refere ao aumento exorbitante dos preços de produtos eletrônicos. Em Belém, lojistas relatam que os preços desses itens subiram mais de 100%, um reajuste inesperado que tem afetado diretamente o desempenho financeiro das lojas locais. Esse cenário se agrava ainda mais pela crescente demanda por componentes eletrônicos impulsionada pelas Inteligências Artificiais, que exigem grandes quantidades de memória RAM em suas operações, encarecendo ainda mais esses produtos.
Com quase três décadas de experiência no comércio de Belém, a vendedora Helitania Ferreira, que atua em uma loja especializada em informática, expressa sua surpresa com os aumentos de preços que começaram a ser notados há cerca de três meses. Entre os produtos mais impactados estão pen drives, SSDs, cartões de memória e memórias RAM, todos com aumentos consideráveis. “Todos esses acessórios e periféricos tiveram seus preços inflacionados significativamente”, observa a vendedora.
Helitania ressalta que o impacto da guerra, juntamente com a demanda crescente de Inteligência Artificial, tem contribuído para a elevação dos custos. “Estamos lidando com preços muito mais altos, tanto para nós, lojistas, quanto para os consumidores, que acabam tendo que arcar com esses aumentos. Se compramos por um valor elevado, não temos escolha a não ser repassar isso para eles”, explica.
Um exemplo claro dessa situação é o SSD, que antes custava R$ 240 e agora não é encontrado por menos de R$ 550, representando um aumento de aproximadamente 129%. Outro produto que chama atenção são os cartões de memória, como o de 8GB, que passou de R$ 23,00 para R$ 50,00, refletindo a dificuldade em manter preços acessíveis em tempos de crise.
Sem uma previsão clara de quando essa situação poderá se normalizar, a loja está tentando vender o estoque atual de forma cautelosa. Helitania menciona que, segundo informações de fornecedores, é provável que os preços mantenham-se altos por pelo menos os próximos dois anos. “As vendas caíram e tanto nós quanto os clientes fomos pegos de surpresa com esses aumentos. Estamos cautelosos, aguardando uma possível estabilização nos preços antes de realizar novas compras”, conclui.
Raízes Econômicas do Problema
O aumento nos preços dos eletrônicos no Brasil possui causas que vão além do que se vê nas prateleiras. Trata-se de uma cadeia de eventos, impulsionada por tensões internacionais e limitações estruturais da economia nacional. O economista Nélio Bordalo Filho, com base em sua experiência, explica que o Brasil apresenta uma grande dependência da importação de componentes eletrônicos, o que diminui sua autonomia e o torna mais suscetível a choques externos. Em períodos de instabilidade global, as consequências são rapidamente sentidas pelo consumidor, especialmente com a volatilidade cambial e a desvalorização constante do real.
Na região Norte, o cenário é ainda mais desafiador. Apesar da presença do Polo Industrial de Manaus, responsável pela montagem de diversos produtos eletrônicos, a indústria ainda depende fortemente de insumos importados. As elevadas despesas logísticas, devido à distância dos grandes centros consumidores e à necessidade de transportes fluviais e aéreos, aumentam ainda mais os custos finais, pressionando tanto o varejo quanto o consumidor.
Bordalo acredita que existem soluções, embora desafiadoras. A curto prazo, podem ser implementadas políticas que estabilizem o câmbio e a redução temporária de tributos sobre componentes eletrônicos. A médio e longo prazo, o economista defende uma estratégia mais abrangente, com foco no fortalecimento da indústria nacional de semicondutores e diversificação de fornecedores internacionais. Além disso, o incentivo à inovação tecnológica e políticas industriais que promovam a agregação de valor dentro do país são fundamentais para reduzir a vulnerabilidade externa. “Precisamos de uma agenda mais robusta para enfrentar esse desafio”, conclui.
