Transformação no Consumo do Açaí em Belém
O açaí, tradicionalmente associado à cultura alimentar do Pará, passa por uma significativa transformação em Belém, refletindo uma nova fase de consumo que vai além do comum. Empreendedores locais estão investindo em versões gourmet e produtos derivados, abrindo novas oportunidades de mercado e aumentando o faturamento, embora ainda enfrentem desafios como a resistência cultural e a sazonalidade na produção.
O Pará, reconhecido como o maior produtor de açaí no mundo, é responsável por aproximadamente 95% da produção brasileira. Belém se destaca como o principal centro comercial desse fruto, funcionando como um elo vital tanto para o mercado interno quanto para a exportação. Recentemente, a cidade tem visto o surgimento de açaiterias que diversificam a oferta, trazendo novos formatos de consumo para os moradores, embora a mudança nos hábitos ainda seja um processo gradual.
“O setor de açaí, especialmente o que foge da forma tradicional de consumo no Pará, enfrenta um grande desafio. As pessoas ainda demonstram resistência em experimentar o açaí de maneiras diferentes,” comenta Roberta Paraense, uma empreendedora local. Ela ressalta que a apresentação de um açaí mais próximo da versão original, livre de aditivos, tem contribuído para vencer essas barreiras. “Trouxemos para Belém o açaí in natura, sem conservantes ou xarope. Isso realmente fez a diferença e despertou o interesse,” explica Roberta.
Aumento do Faturamento e Diferenciação no Mercado
As mudanças comportamentais dos consumidores já estão refletindo nos resultados financeiros do setor. “Hoje, o açaí é considerado o ‘ouro roxo’ da Amazônia, sendo amplamente consumido. Aqueles que visitam Belém e provam o açaí verdadeiro costumam querer levar essa experiência para suas cidades,” avalia Roberta, que percebe um crescimento nas vendas, embora ainda de maneira gradual.
Com diferentes formas de atendimento, as açaiterias têm ampliado as opções de consumo e, de acordo com Roberta, o ticket médio gira em torno de R$ 35 a R$ 40, com margens de lucro de aproximadamente 30%. “O valor varia conforme a quantidade e o modo de consumo. Oferecemos copos de tamanhos variados e também a opção por peso, permitindo que o cliente monte sua própria combinação,” detalha.
No intuito de se destacar em um mercado em crescente competitividade, muitos empreendedores estão investindo na diferenciação. Roberta, por exemplo, apresenta seu negócio como uma “boutique de açaí”, combinando gastronomia e um toque de memória histórica. “Inspiramos nosso empreendimento na Belle Époque, época do ciclo da borracha, quando o açaí era consumido em hotéis e até no Theatro da Paz. Buscamos reviver essa memória,” afirma.
Além do açaí tradicional e do frozen, o cardápio inclui produtos como cachaça, licor, geleia, café e até pimenta de açaí. “O açaí é um universo de experiências. Hoje temos clientes que preferem consumi-lo com pimenta de açaí,” acrescenta.
A Ascensão do Delivery no Setor
O aumento do delivery também desempenha um papel crucial na consolidação do mercado, sobretudo em temporadas de chuva, comuns na região. “O delivery é uma excelente opção, especialmente em dias chuvosos. Embora não seja a principal fonte de renda, proporciona um suporte significativo ao negócio,” afirma Roberta.
A empreendedora Milene Silva, proprietária da Açaiteria Ki Delícia, confirma essa tendência. Ela começou seu negócio de forma caseira, vendendo açaí gourmet apenas por aplicativo. “Iniciamos de casa, utilizando o iFood. Essa ideia surgiu após tentativas anteriores e se mostrou a mais eficaz,” conta.
Atuando no mercado há três anos, Milene relata um crescimento expressivo nas vendas. “Nos últimos anos, nosso faturamento e volume de vendas cresceram cerca de 100%,” destaca. Hoje, cerca de 60% das vendas são feitas por delivery, com os 40% restantes ocorrendo de forma presencial, evidenciando a consolidação do consumo digital no setor.
Desafios da Sazonalidade e Custos de Produção
Apesar do avanço, o mercado enfrenta desafios significativos, especialmente em relação à entressafra do açaí, que impacta tanto na qualidade do fruto quanto nos custos de produção. “A entressafra não afeta apenas o preço, mas também a qualidade. A cor, textura e sabor do açaí mudam, o que gera dificuldades para quem trabalha com o produto,” explica Roberta.
Ela salienta que, frequentemente, o aumento dos custos não é totalmente repassado aos consumidores. “Se realmente repassássemos o custo atual, o preço seria muito mais elevado, o que pesa para nós, empresários,” observa. Por outro lado, Milene adota uma estratégia diferente para manter a competitividade. “Não deixamos que isso impacte no preço final, pois trabalhamos com valores fixos, mesmo com os aumentos no açaí,” diz.
Um Mercado em Expansão
Apesar dos desafios, as empreendedoras acreditam que o mercado local ainda possui espaço para crescimento, especialmente com a diversificação nas formas de consumo. Enquanto em outras partes do país o produto começa a dar sinais de saturação, em Belém, o cenário é de expansão. “Eu vejo o mercado crescendo. A procura tem começado agora, mas o paraense ainda tem essa resistência cultural. É uma questão de tempo até a mudança ocorrer,” afirma Roberta.
Ela acrescenta que essa mudança passa pela criação de novas experiências em torno do açaí: “Houve um tempo em que adicionar leite ao açaí era considerado um absurdo. Hoje, mostramos que ele pode ser degustado de várias maneiras. É uma nova experiência.”
