Cenário de Escassez e Desafios para o comércio
A escassez de mão de obra no comércio brasileiro alcançou um patamar alarmante, o mais elevado nos últimos cinco anos, conforme revelou um estudo da Confederação Nacional do Comércio (CNC) no final de 2025. Em Belém, esse fenômeno expõe um paradoxo intrigante: apesar da geração de empregos ter se mostrado positiva, as empresas encontram dificuldades para preencher vagas e manter suas equipes completas.
Entidades do setor atribuem a problemática à falta de mão de obra qualificada e às mudanças nas expectativas dos trabalhadores. Lojistas têm enfrentado diuturnamente a missão de assegurar a qualidade do atendimento enquanto lidam com a alta rotatividade de funcionários.
Vagas em Aberto e Dificuldades de Preenchimento
Edson Nogueira, gerente de Relacionamento e Marketing da Câmara de Dirigentes Lojistas de Belém (CDL-Belém), salienta que a dificuldade de contratação é uma realidade consolidada na capital paraense. “Estamos em um período de intensa geração de empregos, mas o setor de Comércio e Serviços é o mais impactado por essa falta de mão de obra. Embora tenhamos diversas vagas abertas, o tempo médio para preenchê-las aumentou consideravelmente”, explica.
Funções como operadores de caixa, balconistas e vendedores técnicos são algumas das mais afetadas por essa escassez. “A plena ocupação em nichos qualificados gera uma rotatividade elevada e complica a rápida reposição de pessoal”, complementa Nogueira.
Leia também: Maré Alta Provoca Alagamentos em Belém e Impacta Comércio Local
Leia também: Como o Remo na Série A Está Transformando o Comércio em Belém
Alterações no Perfil do Trabalhador
Dentre os fatores que contribuem para essa escassez, Nogueira menciona a concorrência com outros setores. Isso se torna evidente com os investimentos em infraestrutura e grandes eventos na cidade. “O avanço da construção civil e da logística acaba absorvendo profissionais que tradicionalmente buscariam emprego no varejo”, afirma.
Além dessa concorrência, uma mudança no comportamento dos trabalhadores, especialmente os mais jovens, é notória. “Muitos estão optando por atuar na economia de aplicativos ou se dedicando ao empreendedorismo informal, em busca de maior flexibilidade”, observa Nogueira.
Outro aspecto relevante é a qualificação dos profissionais disponíveis. “O varejo moderno exige não apenas habilidades digitais, mas também um atendimento consultivo eficaz. Embora muitos candidatos tenham vontade de trabalhar, frequentemente lhes faltam as competências técnicas necessárias”, explica.
Descompasso Entre Vagas e Candidatos
O setor enfrenta ainda um desalinhamento significativo entre as expectativas das empresas e as ofertas dos candidatos. “O comércio passou a ser mais que um simples espaço de vendas; tornou-se uma experiência. Hoje, buscamos profissionais que compreendam o cliente e possam oferecer soluções completas”, diz Nogueira.
Leia também: Réplica da Nova Camisa da Seleção Chega ao Comércio de Belém com Preços Variados
Leia também: Capacita Pará: Mais de Mil Vagas em Cursos Gratuitos de Qualificação Profissional
Luiz Carvalho, gestor de uma loja de relógios no centro de Belém, corroborou essa visão afirmando que, apesar da alta procura por vagas, a falta de qualificação continua a ser um desafio. “Recebemos muitos currículos, contudo, a dificuldade em encontrar candidatos capacitados para um atendimento profissional é evidente. Muitos buscam seu primeiro emprego e precisam de treinamentos adequados”, aponta.
Carvalho também mencionou problemas relacionados à retenção de funcionários. “Por vezes, o colaborador começa motivado, mas não consegue manter o nível de desempenho esperado. Isso resulta na perda de talentos ao longo do tempo”, relata.
Impacto na Qualidade do Serviço
A gestora de outra loja de relógios, Scarlatt Moreira, destaca que a situação vai além das contratações e acaba refletindo diretamente na qualidade do serviço prestado. “A dificuldade em encontrar profissionais qualificados afeta diretamente nosso negócio. Recentemente, tivemos que fechar uma unidade porque não encontramos alguém apto a assumir funções de gerência e responsabilidade de estoque”, revela.
Visão do Sindicato sobre o Mercado
Muzaffar Said, diretor do Sindicato do Comércio Varejista e Lojista de Belém (Sindilojas), oferece uma perspectiva mais otimista sobre a situação. “O comércio não encontra tanta dificuldade para contratar, pois muitas pessoas em busca de emprego vão diretamente às lojas, facilitando a seleção”, aponta.
De acordo com Said, o tempo médio para preencher uma vaga varia de duas a quatro semanas. No entanto, ele enfatiza que a experiência ainda é um diferencial relevante. “Embora haja muitos buscando seu primeiro emprego, a experiência prévia ainda é um fator que conta bastante”, destaca.
Soluções para os Desafios do Setor
Para Nogueira, é crucial valorizar o setor como uma verdadeira carreira profissional. “O varejo deve ser encarado como uma opção de carreira, não apenas como um bico. É fundamental oferecer planos de crescimento, flexibilidade e oportunidades de treinamento contínuo”, sugere.
Além disso, ele defende o fortalecimento de programas de qualificação. “Oferecemos cursos gratuitos e atualizados, porém a adesão ainda é baixa. Precisamos estreitar a relação entre candidatos e essas oportunidades”, conclui.
