O Theatro da Paz e sua candidatura à Unesco
O Theatro da Paz, em Belém (PA), é muito mais que um espaço de espetáculos: é um símbolo vivo da cultura e da história da Amazônia. Com 148 anos, essa casa teatral é candidata a integrar a Lista do Patrimônio Mundial da Unesco, em um processo que reúne também o Teatro Amazonas, em Manaus (AM). A 48ª sessão do Comitê da Unesco, que ocorrerá entre os dias 20 e 29 de julho em Busan, na Coreia do Sul, analisará essa candidatura “Teatros da Amazônia” junto com outras 29 propostas ao reconhecimento internacional.
Visitas guiadas revelam a riqueza cultural do teatro
Desde sua inauguração, em 15 de fevereiro de 1878, durante o Ciclo da Borracha, o Theatro da Paz conta sua história por meio de visitas monitoradas que encantam visitantes locais e de outras regiões do Brasil. Um grupo recente de 51 pessoas, entre elas o casal Luciana Matos e Tadeu Pedersoli, de Minas Gerais, conheceu o teatro pela primeira vez e destacou a imponência e os detalhes da construção. Luciana, servidora pública, se emocionou ao descobrir que as pinturas no teto são feitas à mão e não em papel de parede, além da simbologia dos espelhos ligados aos barões da borracha. Para ela, o teatro deve ser reconhecido como Patrimônio Mundial da Unesco, pois representa uma parte fundamental da história paraense, mesmo para quem não mora na região.
A empresária Ariane Furtado Santos, de Parnaíba (PI), também relatou sua admiração pelo ambiente e pela arte do teatro, especialmente pela escada vermelha e pelas pinturas manuais que conferem um charme especial ao espaço.
Detalhes arquitetônicos e simbólicos que encantam
O Theatro da Paz é uma obra-prima do estilo neoclássico e uma verdadeira galeria a céu aberto na Praça da República. Seu hall de entrada possui um piso de pedras portuguesas fixadas com uma mistura inusitada de látex de seringueira e gordura de peixe gurijuba, com mosaicos que remetem às ilhas próximas a Belém, à Cruz de Malta e ao muiraquitã, amuleto da cultura amazônica. A faixa central do piso representa os rios da Amazônia, reforçando a identidade regional.
Um dos destaques é o “Espelho da Verdade”, presente da França durante a reforma de 1904, feito de cristal francês e bronze, que não distorce a imagem refletida. A sala de espetáculos, por sua vez, revela a estrutura social da época, com os andares superiores reservados à elite, enquanto as classes médias e os prestadores de serviços ocupavam os pavimentos superiores.
Importância cultural e social segundo a direção do teatro
Edyr Augusto Proença, diretor do Theatro da Paz, reforça que o teatro reúne características únicas que o tornam merecedor do reconhecimento da Unesco. A arquitetura preservada, a relevância histórica e a contribuição para a identidade cultural amazônica, somadas à sua atuação contínua como espaço de formação artística e produção cultural, são elementos que aproximam o teatro dos critérios para ser Patrimônio Mundial.
Ele destaca ainda a influência do teatro na formação cultural de Belém, impulsionando a atividade cultural, o turismo e a economia criativa local. O Theatro da Paz, aberto a diferentes expressões da identidade amazônica, é palco de grandes produções como óperas e concertos, mas também acolhe manifestações populares, como o Arrastão do Pavulagem, demonstrando a convivência entre tradição erudita e cultura popular.
Legado de Waldemar Henrique e a revitalização do teatro
Entre os nomes que marcaram a história do Theatro da Paz está o do maestro Waldemar Henrique (1905-1995), que assumiu a direção da casa nos anos 1960, quando o teatro enfrentava estado de abandono. O pesquisador e membro da Academia Paraense de Letras, Sebastião Godinho, recorda que Waldemar viveu e trabalhou no teatro, em um gesto de dedicação para reanimar o espaço que considerava mágico e transcendental. A coincidência do aniversário do maestro e da inauguração do teatro, ambos em 15 de fevereiro, reforça a ligação profunda entre o artista e a casa de espetáculos.
Hoje, o Theatro da Paz permanece como um patrimônio cultural vivo, conectando passado e presente, história e arte, e aguardando o reconhecimento internacional que valorize sua importância para a cultura da Amazônia e do Brasil.
