Investimento inicial elevado e dependência de insumos externos
Produzir cogumelos frescos no Pará requer um investimento inicial entre R$ 80 mil e R$ 100 mil, conforme relata o agricultor familiar José Alencar. Ele deixou a carreira de professor para se dedicar ao cultivo, iniciado em 2018, focando na variedade Pleurotus, conhecida como shimeji ou cogumelo-ostra. Essa espécie se adapta bem ao clima amazônico, permitindo o cultivo sem sistemas complexos de climatização, o que reduz custos operacionais. Apesar dos avanços, o mercado local ainda depende em grande parte de cogumelos trazidos de estados como São Paulo e Minas Gerais.
Crescimento no consumo e limitações da produção local
Dados das Centrais de Abastecimento do Pará (Ceasa) mostram que entre 2019 e julho de 2026, o consumo comercializado de cogumelos sujos aumentou 457,19%. A variedade Paris cresceu 106%, enquanto o Portobello teve queda de 25,45%. A média mensal comercializada na Ceasa é de cerca de 43,65 quilos. O diretor técnico Denivaldo Pinheiro confirma que a maior parte dos cogumelos consumidos em Belém vem de outros estados, evidenciando a oportunidade para ampliar a produção regional.
Adaptação ao clima e desafios na matéria-prima
José Alencar começou a cultivar cogumelos após conhecer a atividade em São Paulo, onde percebeu que o clima semelhante na Amazônia favorecia o cultivo do Pleurotus branco. Ele destaca que essa espécie requer principalmente umidade, abundante na região, e tolera temperaturas mais elevadas, dispensando climatização. Essa característica torna a produção mais sustentável e acessível no Pará, onde a energia elétrica é um custo relevante.
Apesar do clima favorável, a escassez de matéria-prima local para o composto é um entrave. O cultivo utiliza cana-de-açúcar, braquiária e feno, mas a oferta desses insumos no Pará é limitada. A alta pluviosidade dificulta o comércio de feno, e o produtor depende de parcerias, como com uma cachaçaria local para obter parte da cana. Alencar também pesquisa o uso de resíduos agrícolas amazônicos, como açaí e fibra de dendê, mas o tanino presente nessas matérias exige tratamentos que comprometem a viabilidade.
Demanda em alta, mas logística encarece o preço final
O diretor executivo de um grupo de hipermercados no Pará, Paulo Oliveira, confirma o crescimento da demanda por cogumelos frescos, adquiridos integralmente em São Paulo. As variedades com maior saída são shimeji e shiitake. O custo do frete é o principal fator que encarece o produto para o consumidor paraense, representando um desafio para a expansão do mercado local.
Vida útil curta exige rapidez na comercialização
José Alencar ressalta que o cogumelo fresco tem uma durabilidade de apenas 10 dias, o que torna fundamental uma logística eficiente para garantir que o produto chegue rápido ao consumidor. Para ampliar a produção, é essencial que os novos produtores estejam próximos dos centros consumidores ou possuam canais definidos para escoar a produção, garantindo a sustentabilidade do negócio.
Parcerias com chefs impulsionam o mercado regional
Para ampliar o consumo, Alencar aposta em parcerias com restaurantes e chefs locais. No Pará, a presença de cozinheiros renomados facilita a introdução do cogumelo em diferentes preparações, incluindo restaurantes japoneses e pizzarias. Essa estratégia tem potencial para ampliar o mercado além do tradicional, ajudando a consolidar o produto na culinária regional.
Potencial para pequenos produtores e soluções sustentáveis
O cultivo de cogumelos pode representar uma alternativa de renda para agricultores familiares, desde que sejam considerados os desafios de comercialização e logística. Alencar utiliza técnicas para reduzir custos, como reaproveitar água da chuva e empregar caixas de isopor para isolamento térmico. Essas soluções mostram que o Pará possui condições para ampliar a produção, apesar dos gargalos em infraestrutura, energia e transporte.
O crescimento da comercialização registrado pela Ceasa indica que o mercado consumidor está em expansão. Para o agricultor, o desafio é aproximar produção e consumo para viabilizar a atividade como fonte de renda para pequenos produtores paraenses, reconhecendo que a logística ainda é um ponto crítico a ser superado.
