Desafio imediato para indústria local
A confirmação da presença de petróleo no poço Morfo, na Bacia da Foz do Amazonas, reacende no Pará a expectativa de integrar uma nova fronteira energética. A descoberta, anunciada no início desta semana, traz uma corrida contra o tempo para que o estado não apenas atraia investimentos, mas também converta essa movimentação em geração de empregos e desenvolvimento econômico local.
A Federação das Indústrias do Estado do Pará (Fiepa) destaca que, apesar do Pará já contar com polos metalmecânico e naval consolidados e empresas experientes em grandes projetos, isso não garante automaticamente que fornecedores locais conquistarão contratos na cadeia do petróleo e gás. “Potencial e ativos existentes, sozinhos, não garantem protagonismo”, afirma Alex Carvalho, presidente da entidade.
Preparação de empresas e infraestrutura
O caminho para o Pará ocupar papel estratégico passa pelo avanço em infraestrutura, qualificação profissional, desenvolvimento de fornecedores, tecnologia e melhorias no ambiente de negócios. Pequenas e médias empresas enfrentam barreiras como os custos para obter certificações técnicas, por exemplo, ISO 9001, e padrões de segurança, como ISO 45001.
Carvalho observa que muitas dessas empresas já têm capacidade técnica e experiência, mas precisam aprimorar processos internos, gestão da qualidade e equipes para atender padrões exigidos pela indústria. Para superar essas dificuldades, a Fiepa defende a criação de programas de desenvolvimento de fornecedores que preparem as empresas para auditorias e requisitos de grandes companhias como a Petrobras.
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Fonte: noticiadesalvador.com.br
Investimento em qualificação profissional
A formação de mão de obra qualificada é outra prioridade. A federação aposta no papel do Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai) para construir uma estratégia de qualificação capaz de antecipar as competências que a nova cadeia exigirá. O objetivo é formar profissionais cujas habilidades sejam aproveitadas também em outras indústrias e setores energéticos da região.
A Universidade Federal do Pará (UFPA) já oferece formação específica na área, com 278 estudantes no curso de Engenharia de Exploração e Produção de Petróleo, em Salinópolis, embora não haja dados consolidados sobre a absorção desses egressos no mercado local.
Oportunidade única para a economia regional
A janela para preparar empresas e trabalhadores não pode ser desperdiçada. Quanto mais cedo forem identificadas as demandas da indústria, certificações e competências exigidas, maior a chance de participação do Pará na cadeia produtiva antes do início dos grandes investimentos. “Precisamos construir essa ponte antes que os investimentos aconteçam”, reforça Alex Carvalho.
Exploração ainda em fase inicial
O cenário, porém, ainda exige cautela. O geólogo e professor da UFPA, Pedro Walfir Souza Filho, explica que a produção comercial na Margem Equatorial depende de novas perfurações para confirmar a reserva e sua viabilidade econômica. A Petrobras deve realizar ao menos três furos exploratórios para dimensionar os volumes e custos.
Se confirmada a viabilidade, a produção pode começar em seis ou sete anos. Enquanto isso, a região precisa investir em infraestrutura portuária, dutos, estradas e concluir a pavimentação da BR-156, que liga Macapá a Oiapoque, além de estruturar uma rede de fornecedores locais para a nova atividade.
Pesquisa científica e controle ambiental
Walfir destaca também a importância de ampliar a pesquisa científica na Amazônia. Em parceria com a Petrobras, desenvolve um projeto para estabelecer parâmetros ambientais que permitam monitorar o impacto da exploração, com a criação de uma central geoquímica no Instituto de Geociências da UFPA para análise comparativa antes e depois da atividade.
Legado econômico e social
Para o pesquisador, o maior desafio será garantir que a exploração deixe um legado positivo para a região. Ele defende que parte dos royalties e impostos seja investida em ciência, tecnologia, inovação e educação desde o começo do ciclo produtivo. A preocupação é evitar que o petróleo represente apenas mais um ciclo de extração sem retorno social.
O esgotamento gradual das reservas atuais reforça a importância da Margem Equatorial como uma nova fronteira para o setor no Brasil. A sociedade precisa estar preparada para decidir como usar os recursos gerados para impulsionar o desenvolvimento social e econômico da Amazônia, destaca Walfir: “Temos uma oportunidade real para promover crescimento. Isso depende de nós”.
