Frete, Mão de Obra e a COP 30: Os Desafios do Setor de Construção
No início de 2026, os preços dos materiais de construção em Belém permanecem elevados, refletindo uma combinação de fatores que se acumulam desde o ano anterior. A realização da COP 30, a Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas, na capital paraense, acresceu as dificuldades enfrentadas pelo setor, que já lidava com o aumento do custo do frete e a escassez de mão de obra na construção civil. Empresários do ramo acreditam que, embora os valores ainda sejam altos devido à forte demanda de 2025, há perspectivas de estabilização nos próximos meses.
A corrida por obras em virtude da preparação para a COP 30, realizada em novembro de 2025, gerou um aumento significativo na demanda, tanto por materiais quanto por profissionais da construção civil. Isan Anijar, diretor comercial de uma loja de revestimentos em Belém, destaca que o impacto da conferência ainda é sentido no mercado. “O evento trouxe um aumento nos preços, principalmente por conta da escassez de mão de obra causada pela alta demanda”, comenta.
Ele observa que a necessidade de obras para atender hotéis, restaurantes e projetos de infraestrutura durante a COP foi intensa. “Durante o evento, foi difícil conseguir mão de obra. Havia muitas entregas a serem feitas, especialmente por parte do governo e da prefeitura”, adiciona Anijar.
Sinais de Normalização no Mercado da Construção
Apesar do cenário ainda desafiador, há indícios de que o mercado de trabalho na construção civil começa a se normalizar. Anijar relata que, desde o início de 2026, a disponibilidade de profissionais tem aumentado. “Acreditamos que, a partir de março, os preços começarão a se acomodar. Já percebemos uma melhora na mão de obra em janeiro e fevereiro”, afirma.
A expectativa é que, com a diminuição da demanda gerada pela COP 30, os preços passem por um processo gradual de estabilização, aliviando um pouco a pressão sobre os consumidores.
Impacto do Aumento do Frete nos Custos
Outro fator que tem contribuído para a elevação dos custos dos materiais de construção é o aumento no preço do transporte. O valor do frete, que antes girava em torno de R$ 800 por tonelada, agora está próximo de R$ 1.000, o que impacta diretamente o preço final dos produtos. Anijar explica que essa alta está atrelada ao cenário internacional e ao aumento no custo do diesel.
Entre os materiais mais afetados, destacam-se aqueles que demandam maior mão de obra ou cuja logística é encarecida. Segundo Anijar, “todos os produtos que possuem um custo elevado de mão de obra foram impactados, especialmente os planejados e os revestimentos, devido ao aumento do frete”. Os valores dos materiais podem variar bastante: pedras naturais custam entre R$ 100 e R$ 400 o metro quadrado, enquanto mármores e granitos podem oscilar de R$ 500 a R$ 1.500.
Estratégias para Manter a Competitividade
Diante da pressão inflacionária, as empresas do setor têm buscado alternativas para manter suas vendas sem perder clientes. Anijar menciona que uma das estratégias tem sido oferecer melhores condições de pagamento. “Estamos sempre em busca de viabilizar para o cliente, especialmente considerando a pressão inflacionária sobre os materiais de construção. O parcelamento tem sido um recurso importante para amenizar o impacto imediato no orçamento dos consumidores”, explica.
Cabos Elétricos e Outros Produtos em Alta
No varejo de materiais de construção, alguns itens específicos já apresentam aumentos mais significativos, especialmente na categoria elétrica e metálica. Carlos Rodrigo, gerente de uma loja em Belém, observa que, até agora, não houve variações significativas nos preços dos produtos básicos. “Não identificamos aumentos ou quedas nos itens básicos até o momento”, afirma.
Rodrigo acrescenta que as lojas têm adotado estratégias para absorver parte dos custos, evitando repasses diretos ao consumidor. “Estamos ajustando nossas margens de venda em alguns produtos, especialmente os de maior giro. Outros itens estão sendo reajustados quando recebemos a reposição”, aponta.
Os cabos elétricos foram os que mais sentiram os efeitos do aumento de preços, principalmente devido à valorização das matérias-primas, como o cobre. “Os cabos elétricos sofreram um reajuste de cerca de 15%”, diz Rodrigo, ressaltando que também houve aumentos em outros produtos metálicos, embora em menor proporção.
Ainda assim, o impacto do custo de transporte não foi sentido diretamente no varejo local. Rodrigo afirma: “Os aumentos dependem de fatores externos, como conflitos no Oriente Médio, e, até agora, a política de redução de tributos sobre combustíveis tem ajudado a evitar reajustes imediatos”.
