A Arte como Pilar dos Videogames em Belém
Quem nunca se deixou envolver por uma partida de videogame, aproveitando momentos de lazer embalados por tramas, desafios e personagens cativantes? Por trás dessa experiência, existe um complexo processo criativo no qual a arte desempenha papel fundamental para dar vida e identidade aos games. Em julho, a Petrobras anunciou um investimento de R$ 270 milhões por meio da Seleção Petrobras Cultural 2026, com recursos destinados às leis Rouanet e do Audiovisual, incluindo a produção de jogos eletrônicos. Essa iniciativa promete impulsionar a criação e a visibilidade dos games brasileiros, com reflexos também para a produção no Pará.
Desenvolvimento Local e o Papel da Arte
Apesar do crescimento da indústria nacional de videogames, o Brasil ainda enfrenta desafios na consolidação de um mercado para produtos locais, como lembra Rafael Fernandes, professor de Arte, desenvolvedor de games e facilitador de oficinas na Fundação Curro Velho, em Belém. Ele observa que o interesse dos belenenses pelo tema é constante e que projetos como o jogo “Waldo”, criado por ele no Maniva Estúdio para combater a dengue, exemplificam o potencial da produção paraense. Além disso, a comunidade Beljogos fomenta a divulgação e o desenvolvimento de jogos da região, fortalecendo a cena local.
Segundo Rafael, a arte é crucial para a construção da narrativa e da identidade visual dos jogos. “A arte na criação de jogos é parte fundamental para entendermos o cenário atual do desenvolvimento de games. As técnicas de artes visuais, a animação e a arte conceitual formam a tríade que sustenta uma boa história contada em imagens. Mas, para termos uma boa estrutura, precisamos também de um bom roteiro criativo e com personagens bem construídos. Roteiros bem contados aproximam o jogador da história, porque, em muitos momentos, ele se reconhece nos sentimentos que a narrativa transmite. E uma boa composição musical fortalece tudo isso, dando o clima certo para cada momento do jogo”.
Equilíbrio entre Técnica e Expressão Artística
Para o professor, o contato inicial do jogador com o game se dá pela arte. “Antes mesmo de jogar, ele já é atraído ou não pela imagem, pelo estilo visual do jogo, pela trilha sonora que ouve no trailer. É a arte que cria identidade e desperta o desejo de entrar naquele universo. Sem esse cuidado estético, mesmo um jogo tecnicamente bem feito pode passar despercebido e pode se tornar um fracasso”. Ele destaca que a mecânica e a programação garantem o funcionamento do jogo, mas é a parte artística que provoca a conexão emocional e a fidelização do público. “As duas partes, técnica e arte, precisam caminhar juntas”.
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Produzir um videogame demanda esforço coletivo e dedicação intensa, explica Rafael. O processo envolve desde a concepção da ideia, definição do gênero e mecânica principal, até o desenvolvimento do roteiro, estilo visual, personagens e regras de interação. Esse trabalho, muitas vezes realizado por equipes pequenas, requer suporte financeiro para se concretizar e alcançar resultados expressivos.
Crescimento da Indústria e Incentivos em Belém
O professor ressalta que o Brasil tem avançado na produção de games, com estúdios e desenvolvedores ganhando reconhecimento nacional e internacional. Entretanto, ainda falta um mercado consolidado para os jogos brasileiros, que frequentemente perdem espaço para produtos estrangeiros. “Os jogos autorais ou de estúdios pequenos, que são a grande maioria no Brasil, precisam de aporte financeiro. Eu mesmo produzi o ‘Waldo’, jogo autoral criado no meu estúdio, o Maniva Studio, um exemplo de como é possível fazer um trabalho relevante mesmo com uma estrutura pequena. E iniciativas como a Seleção Petrobras Cultural, que agora inclui a modalidade de Produção de Games, ajudam justamente a mudar esse cenário, dando mais visibilidade e recursos para quem produz no país”, completa.
Oficinas e Comunidade: Formação e Circulação
Em Belém, existe uma demanda crescente, principalmente entre jovens, por oficinas de desenvolvimento de jogos. Essa geração cresceu jogando e tem curiosidade sobre o processo de criação, que envolve desenho, animação, design, tecnologia, música e narrativa. O interesse também aumenta pelo fato de poderem participar da construção de jogos com referências regionais, algo ainda pouco explorado.
Há mais de duas décadas, a Beljogos atua como comunidade de desenvolvedores locais e da Região Norte, com mais de 200 membros ativos. Eles promovem seus trabalhos por meio de lives, vídeos e eventos, além de realizar palestras, oficinas e incentivar a pesquisa acadêmica, estimulando a participação em eventos como o SBGames, o maior simpósio de games da América Latina.
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Fonte: belembelem.com.br
Estúdios e Jogos que Representam o Pará
Segundo Ingrid Mendes, integrante da Beljogos, o Pará conta com quase 20 estúdios dedicados ao desenvolvimento de jogos analógicos e digitais, abordando temáticas variadas. Alguns títulos destacam diretamente a cultura local, enquanto outros se enquadram na categoria de jogos educativos, chamados de jogos sérios. A faixa etária dos desenvolvedores vai desde adolescentes até adultos acima de 40 anos.
Dentre os estúdios locais, estão o ParamPara, com o jogo Ghostein, premiado na GameJam Plus de 2018 e disponível para Nintendo Switch e Steam; o Team Seventh Star, com Code Bunny, que conquistou o prêmio de melhor arte na HeadsCon Acre de 2024 e foi citado na revista japonesa Famitsu; o Anonymous King, com Project Chameleon, vencedor do prêmio de melhor áudio na HeadsCon Acre de 2024; e o Fase 9 Studios, de Eldorado de Carajás, com Trio Adventures, premiado na HeadsCon Acre de 2025 e finalista no SBGames de 2019.
Outros destaques incluem o Fóton Studio, com Lendas da Amazônia, premiado por sua temática amazônica na HeadsCon Acre 2025 e no edital da Lei Paulo Gustavo; o RetroCat Studios, vencedor como melhor jogo na HeadsCon Acre de 2025 com Cat Venture, the Curse of the Dark Tower; o Ergosphere, com diversos jogos finalistas na região norte; e o Ilanautas, com o jogo de tabuleiro Vitruvius, premiado no SBGames de 2025 e disponível na ludoteca SideQuest.
Esses exemplos ilustram como a arte dos videogames em Belém não só encanta gerações, mas também cria raízes profundas na cultura local, unindo criatividade, tecnologia e identidade regional, com potencial para fortalecer a cena cultural e ampliar o acesso do público aos jogos produzidos na região.
