Futebol e moda urbana se entrelaçam em Belém
Com o encerramento da Copa do Mundo, o futebol permanece vivo no cotidiano dos torcedores paraenses através de uma outra paixão: as camisas de Remo e Paysandu. Tradicionalmente usadas apenas nos estádios e durante os jogos, essas peças agora ocupam um lugar de destaque na moda streetwear, tornando-se símbolos de estilo, identidade e colecionismo.
Em Belém, esse movimento reflete uma tendência crescente no Brasil e no mundo. Impulsionadas pela cultura streetwear e pela expansão dos brechós, tanto físicos quanto virtuais, camisas das décadas de 1990 e 2000 passaram a ser altamente disputadas por torcedores e colecionadores, transformando esses uniformes históricos em itens valorizados dentro e fora do universo futebolístico.
Moda, identidade e memória afetiva
Um ensaio fotográfico realizado no centro histórico da capital paraense, com camisas clássicas de Remo e Paysandu, reforça a relação entre futebol, moda e identidade cultural local. Para compreender esse fenômeno, O Liberal conversou com colecionadores, a designer de moda Letícia Maria e o fotógrafo Amdrei Serrão.
Para Letícia, as camisas de futebol transcenderam a paixão clubística e passaram a funcionar como elementos de expressão pessoal. “Essas camisas carregam memórias ligadas à família, às amizades e ao esporte. Com o crescimento do streetwear, elas deixaram de ser usadas apenas em dias de jogo e passaram a representar identidade e referências pessoais”, explicou.
A designer destaca ainda que o visual dos uniformes ajuda a entender essa valorização: “A modelagem oversized, as golas em ‘V’, os escudos e os grafismos remetem às camisas dos anos 1990 e 2000. Esses elementos conferem identidade e fazem dessas peças um destaque na moda urbana.” Ela ressalta, porém, que o mercado ainda precisa reconhecer melhor os produtores culturais das periferias. “A moda tem valorizado mais a criatividade periférica, mas é fundamental abrir espaço para que artistas e designers dessas comunidades participem e liderem projetos”, afirmou.
Segundo Letícia, esse processo requer pesquisa e respeito às referências culturais locais. “Quem trabalha com regionalismo e futebol precisa compreender a origem dessas referências. Quando esse cuidado existe, o resultado é mais autêntico e representativo”, completou.
Rivalidade cultural e streetwear no centro histórico
O fotógrafo Amdrei Serrão falou sobre o conceito do ensaio e sua importância para a cultura paraense. “O objetivo foi unir o lado cultural e quase religioso da rivalidade entre Remo e Paysandu com a estética do streetwear, trazendo uma pegada urbana. Sempre quis fazer algo mais cultural e nortista, e decidimos abordar um dos temas que mais define o paraense: essa rivalidade histórica entre os clubes. Trabalhamos diversas camisas retrô na linha streetwear, e tirar essa ideia do papel foi uma realização para todos nós”, contou.
Marca local ganha destaque com peças autorais
Na moda streetwear, o perfil “Zona de Khaos”, da artista Samella Cavalcante, tem se destacado nas ruas com uma proposta que une atitude e identidade regional. A marca trabalha com a personalização de bonés, um acessório fundamental para o público paraense, e inclui referências dos clubes Remo e Paysandu em suas criações.
Samella explica que uma das coleções desenvolvidas foi uma parceria que resultou em peças inspiradas nos clubes paraenses, com uma releitura artística da identidade das equipes por meio do streetwear autoral. “A colaboração reforça a proposta de transformar referências da cultura paraense em peças exclusivas, valorizando a criatividade e a identidade local”, disse.
Brechós fortalecem colecionismo e valorização histórica
Além da moda, os brechós desempenham papel fundamental na valorização das camisas antigas. Gabriel Moraes, colecionador e criador do perfil Camisa Bicolor no Instagram, conta que sua paixão começou ainda na infância. “Tudo começou em 2001, quando ganhei de presente a camisa número 2 do Paysandu, após o segundo título brasileiro. Hoje, encontrar modelos raros é um desafio, pois quem tem dificilmente vende”, revelou.
Gabriel destaca que muitos itens do seu acervo foram garimpados em feiras e brechós de Belém. “Eu costumava descer do ônibus ao ver um brechó com camisas. Com o crescimento dos brechós nas redes sociais, ficou muito mais fácil encontrar peças que antes demorariam anos para aparecer”, explicou.
Do lado azulino, Leandro Tobelem, responsável pelo perfil Vestiário Azul-Marinho, iniciou sua coleção em 2012 e hoje possui mais de 120 camisas do Remo. “Comecei adquirindo os lançamentos do clube e depois passei a buscar modelos antigos e raros da história do Leão Azul”, comentou.
Leandro também destaca a importância dos brechós para quem coleciona: “Diversos modelos raros foram encontrados em brechós, que são fundamentais para quem busca camisas históricas.” Para ele, essas peças preservam parte essencial da memória do clube. “As camisas antigas trazem escudos marcantes e patrocinadores que fizeram parte da história do Remo, como Big Ben, Amazônia Celular e NBT, representando a memória afetiva do torcedor”, concluiu.
Onde encontrar camisas antigas de Remo e Paysandu
Para quem deseja ampliar sua coleção, alguns brechós no Instagram são referência para encontrar camisas antigas dos dois clubes paraenses:
- Mala de Ouro – @maladeouro
- Chuta no Gol – @chutanogolbrecho
- Dante’s Thrift – @dantes.thrift
- Arrepia, Zagueiro – @arrepia_zagueiro
- The North Brechó – @thenorthbrecho
- Lendas Futebol Shirts – @lendasfutbolshirts
- Garimpo dos D – @garimpodosd
- Garimpo Fino – @garimpofinobrecho
- Mídia 7 Brechó – @midia7brecho
- Bazar dos 87 – @bazardos87
