Nilson Chaves e a alma cultural de Belém (PA)
Belém (PA), encravada entre rios que cortam a Amazônia, é um verdadeiro palco de cultura viva. Suas raízes indígenas e caboclas formam a base de uma identidade musical singular, onde o carimbó — reconhecido como Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil — e a lambada ressoam por suas ruas e festivais. Em meio a essa riqueza, Nilson Chaves se destaca como um dos maiores representantes da Música Popular Paraense (MPP). Violonista e cantor, sua presença é marcante tanto no cenário nacional quanto internacional, consolidando-o como uma das maiores joias da música brasileira.
Um guia musical e cultural pela capital paraense
Aos 74 anos, Nilson Chaves, que venceu a covid-19, tornou-se guia do VIVA em uma manhã dedicada a explorar Belém (PA). O passeio começou em seu fiel companheiro, um antigo Chevrolet Prisma repleto de CDs que traduzem sua paixão pela música. Ele conta que, mesmo depois de passar mais de quatro décadas no Rio de Janeiro, sempre retornava às ilhas que circundam a região metropolitana fluvial durante as férias, onde mergulhava em histórias de barqueiros e banhos nos rios, encontrando ali uma paz singular.
Embora influenciado pelas experiências no Sudeste, Nilson reforça com orgulho sua identidade amazônica. “Eu tenho milhares de compositores, cantores e cantoras da região que levantam comigo a bandeira: ‘Eu sou paraense, mas eu sou muito mais do que paraense, eu sou amazônico'”, destaca. Para ele, a Amazônia transcende limites e estados: “A Amazônia toda me conhece. Eu bebo a Amazônia toda. Eu vivo na Amazônia toda.” Essa essência universal é que o levou a um momento marcante de sua carreira: em 2000, foi indicado ao Grammy Latino pelo álbum “Tempo Destino: 25 Anos Ao Vivo”. Durante o voo de Nova York a Los Angeles, dividiu espaço com estrelas do pop mundial, como Shakira e Christina Aguilera. O reconhecimento da imprensa americana, surpreendentemente, aconteceu por ser o primeiro artista amazônico indicado ao prêmio, um marco para toda a região.
Descobrindo os encantos do Mangal das Garças e o regionalismo musical
A primeira parada do passeio foi o Mangal das Garças, um parque ecológico inaugurado em 2005 durante a gestão do secretário de Cultura do Pará, Paulo Chaves. O local reúne uma diversidade de animais em liberdade, como garças, borboletas e lagartos, e encanta os visitantes com a famosa revoada das aves, que ocorre por volta das 11 horas. Ali, o Quiosque Pai D’Égua, comandado pelo angolano Orlando Rodrigues, oferece delícias amazônicas, como o suco de bacuri — fruta que Orlando descreve como “a mais nobre que temos”, valorizando até o sabor da casca.
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Em conversa com Orlando, Nilson relembra os desafios enfrentados para inserir a música regional nas grandes rádios do Sudeste, onde seu trabalho muitas vezes era visto com desdém. Para o cantor, o regionalismo não é limitação, mas sim um elemento essencial: “Regional significa você cantar o teu povo. Cantar a tua origem, o teu hábito, o teu costume.” Essa conexão profunda com suas raízes é o que mantém viva a autenticidade de sua obra.
Ruas históricas e a riqueza cultural do centro de Belém
De volta ao Prisma, o trajeto seguiu para o centro histórico da cidade, onde as ruas estreitas revelam uma Belém colonial. “Aqui é a Cidade Velha, onde tudo começou. Aqui as casas todas tinham azulejo português, há pouquíssimas que permanecem ainda intocáveis”, comenta Nilson. A visita incluiu a Casa das Onze Janelas, construção do século XVIII que preserva a memória da metrópole antiga em meio ao caos urbano atual, e uma pausa para água de coco no Largo da Sé, um oásis no coração da cidade.
O passeio terminou na Estação das Docas, antigo porto que, após revitalização, se transformou em um polo gastronômico e cultural vibrante. Nilson enfatiza que sua música não se restringe ao folclore, mas representa a Amazônia urbana, mesclada a um “sentimento de roqueiro” que conquista diferentes públicos. Essa versatilidade o levou a cruzar o Brasil e firmar parcerias com nomes importantes da MPB, como Flávio Venturini, Chico César, Sá e Guarabyra e Zeca Baleiro. Entre suas amizades mais queridas está Lô Borges, a quem chama de “irmãozão querido”.
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Moda artesanal e memórias à beira da Baía do Guajará
À margem da Baía do Guajará, Nilson compartilha o segredo por trás de suas camisas coloridas, usadas em seus shows: peças da boutique Madame Floresta, símbolo da moda artesanal e circular, criada pela talentosa Graça Arruda. Ali, ele presenteia com uma blusa estampada com um boto-cor-de-rosa pintado à mão e um vestido branco rodado com flores bordadas, artefatos que representam muito mais que vestuário, mas verdadeiros tesouros culturais.
Superação, gratidão e amor: a despedida de Nilson Chaves
Em um encontro no Quiosque Pai D’Égua, antes de retornar a São Paulo, Nilson falou abertamente sobre sua luta contra a covid-19, que o levou a passar oito dias intubado e 15 dias na UTI da Santa Casa de Misericórdia do Pará. Ele relembra o ambiente hospitalar transparente, onde tudo podia ser visto, e a força dos profissionais de saúde diante do desconhecido e do medo. “Eu sentia a alegria e o prazer de eles trabalharem”, conta, ressaltando a dedicação da equipe.
Essa experiência intensa inspirou a composição da canção “Iluminados”, uma homenagem aos que Nilson considera verdadeiros heróis. Com a voz emocionada, ele revela seu segredo para a recuperação: “Eu acredito muito na cura a partir do amor, da paixão, da entrega, da fé, da gratidão.” Assim, Nilson Chaves segue sendo não só um símbolo da cultura amazônica, mas também um exemplo de resistência e inspiração para todos que o acompanham.
