Inteligência Artificial: O Novo Aliado da Medicina
A recente publicação da Resolução nº 2.454/2026 do Conselho Federal de Medicina (CFM) trouxe novas diretrizes para a utilização da inteligência artificial na área da saúde no Brasil. divulgada em fevereiro deste ano, a norma estabelece que a tecnologia deve ser um instrumento de apoio na tomada de decisões médicas, mantendo a responsabilidade final sobre o atendimento sob a supervisão do médico. Especialistas no Pará discutem o impacto dessas novas regras no cotidiano médico.
A resolução também aborda aspectos de governança, avaliação de riscos, auditoria, transparência e explicabilidade das tecnologias utilizadas. Outro ponto fundamental é a definição de normas rigorosas para a proteção de dados pessoais, em conformidade com a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD). O documento ainda diferencia entre níveis de risco e impacto das soluções tecnológicas, criando padrões para uma adoção segura da inteligência artificial na medicina.
A IA já faz parte da rotina médica
De acordo com o cardiologista Rodrigo Souza, presidente da Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC), a aplicação da inteligência artificial na prática médica já é bastante comum. “A IA já está inserida no dia a dia da medicina de uma maneira que muitos não percebem. Por exemplo, quando um médico analisa uma radiografia com a ajuda de um software que aponta áreas suspeitas, isso é inteligência artificial em ação. Da mesma forma, sistemas que organizam a fila de atendimento em hospitais com base na gravidade dos casos também se valem dessa tecnologia”, explica Souza. Segundo o especialista, o uso mais frequente da IA ocorre na área de diagnóstico por imagem, incluindo tomografias e ressonâncias, além de ajudar na interpretação de eletrocardiogramas e na organização de prontuários.
Souza enfatiza que as áreas que lidam com grandes volumes de dados têm mostrado resultados significativos ao adotar essas tecnologias. “No diagnóstico por imagem — abrangendo radiologia, cardiologia, dermatologia e oncologia — a IA tem apresentado resultados notáveis”, afirma. Ele cita a detecção precoce de doenças como um exemplo claro. “Na oncologia, por exemplo, sistemas de IA já são capazes de identificar tumores em estágios iniciais com alta precisão. Na cardiologia, a análise automatizada de eletrocardiogramas é crucial para a detecção de arritmias que poderiam ser negligenciadas”, complementa. Além disso, a tecnologia pode otimizar a gestão hospitalar, organizando desde o estoque de medicamentos até o fluxo de pacientes.
Responsabilidade continua sendo humana
Um dos aspectos mais importantes da nova resolução é a definição clara de que a inteligência artificial deve atuar apenas como um suporte ao profissional de saúde. Na visão de Souza, a tecnologia deve ser encarada como uma segunda opinião. “Imagine que o médico recebe uma sugestão da IA, como se fosse a opinião de um colega experiente — porém, a decisão final sempre recai sobre o profissional”, enfatiza.
Ele ressalta que as recomendações oferecidas por sistemas automatizados não têm caráter definitivo. “A resolução deixa isso muito claro: nenhuma sugestão gerada por um sistema de IA é vinculativa ou definitiva. Portanto, cabe ao médico ponderar as recomendações levando em conta o contexto clínico do paciente”, acrescenta. A comunicação de diagnósticos, segundo Souza, deve sempre ser realizada pelo profissional de saúde. “É imprescindível que a comunicação de diagnósticos ao paciente nunca ocorra por meio de IA. Essa responsabilidade deve sempre passar por um ser humano”, afirma.
Considerações sobre a segurança de dados
Ainda que as vantagens sejam significativas, o uso da inteligência artificial na saúde exige cautela por parte dos profissionais. Souza aponta que o principal cuidado é manter o julgamento clínico independente. “O primeiro e mais relevante cuidado é não aceitar tudo que a IA sugere sem questionar. O médico deve avaliar se a recomendação se aplica ao paciente específico”, esclarece. Outro requisito importante é a utilização de ferramentas que possuam validação científica e certificação adequada. “Nem todos os aplicativos ou softwares se encaixam na prática clínica. É necessário que eles atendam a padrões éticos, técnicos e legais”, declara.
A proteção das informações dos pacientes é um dos pilares da nova resolução, sendo imprescindível pensar na privacidade desde a concepção dos sistemas, de acordo com o cardiologista, que menciona o princípio da “privacy by design”.
A presidente do Conselho Regional de Medicina do Pará (CRM-PA), Tereza Cristina Azevedo, vê a resolução como um avanço significativo ao estabelecer parâmetros éticos e técnicos para o uso da tecnologia. “O CRM-PA avalia positivamente a Resolução nº 2.454/2026, pois ela proporciona fundamentos para a integração da inteligência artificial na prática médica”, afirma. Segundo Tereza, a norma equilibra inovação tecnológica e segurança do paciente, reconhecendo o potencial das novas tecnologias para auxiliar na assistência em saúde enquanto reafirma princípios fundamentais da medicina, como a responsabilidade profissional e a autonomia do médico na tomada de decisões clínicas. Ela acrescenta que ferramentas com base em inteligência artificial já estão sendo utilizadas por profissionais da saúde no Pará, principalmente para apoio na análise de exames e organização de prontuários e dados clínicos.
