Uma Celebração de Tradição e União
Na última sexta-feira, dia 27 de outubro, o Mercado do Ver-o-Peso, um ícone de Belém e reconhecido como a maior feira livre da América Latina, fez 399 anos. A ocasião foi marcada por uma festa simbólica, organizada pelos próprios feirantes, já que a programação oficial da prefeitura foi cancelada. O evento, embora simples, refletiu a força e a união dos trabalhadores que diariamente mantêm viva a tradição desse espaço cultural e comercial.
Os feirantes prepararam um bolo de aniversário, entoaram canções de comemoração no Mercado de Carnes e homenagearam todos os setores do complexo. Manoel Rendeiro, conhecido como Didi e presidente do Instituto Ver-o-Peso, destacou a importância dessa celebração, que reafirma a união dos trabalhadores e o papel fundamental que eles desempenham no cotidiano do mercado, que passou por uma revitalização de 90% e continua sendo o coração pulsante da economia e cultura paraense.
Preservação da Memória e do Patrimônio Cultural
Didi, em sua fala, recordou que a data de fundação foi oficialmente identificada há 25 anos, com o auxílio de uma historiadora. Desde então, o instituto luta para preservar a memória do mercado, incentivando os feirantes a celebrá-lo anualmente. “A data de fundação é fundamental para a nossa história”, afirmou.
A prefeitura de Belém havia anunciado uma programação oficial para marcar a data, mas o evento foi cancelado sem maiores esclarecimentos. No entanto, a ausência de um evento oficial não diminuiu o entusiasmo dos feirantes, que se uniram para celebrar o que consideram um patrimônio vivo.
Reconhecimento do Patrimônio Imaterial
Um dos principais objetivos dos feirantes neste ano é o reconhecimento das atividades centenárias do mercado como patrimônio cultural imaterial pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). Didi ressaltou que atividades como a venda de açaí, pescado, hortifrúti, refeições, castanhas e frutas regionais têm mais de 400 anos de história e precisam ser valorizadas. Para isso, ele já agendou uma reunião com o Iphan e planeja mobilizar tanto o governo estadual quanto a prefeitura em busca desse reconhecimento.
“Não adianta só a estrutura ser patrimônio sem os trabalhadores que fazem ele funcionar”, enfatizou Didi em entrevista, reforçando a necessidade de um olhar mais atento às atividades que ocorrem no Ver-o-Peso.
Ver-o-Peso: Um Símbolo da Identidade Paraense
O Mercado do Ver-o-Peso é mais do que um espaço comercial; é um verdadeiro cartão-postal de Belém, reunindo sabores e tradições que contam a história da capital paraense. Inaugurado em 1625, no antigo Porto do Pirí, o local começou como um posto de aferição de mercadorias e arrecadação de impostos, evoluindo ao longo do tempo para o grande mercado que conhecemos hoje.
No século XVIII, Belém se consolidou como o maior entreposto comercial da Amazônia, facilitando a circulação de produtos da floresta e bens europeus. Esse intenso fluxo comercial deu origem ao Ver-o-Peso, que foi tombado pelo Iphan como conjunto arquitetônico e paisagístico em 1977.
Transformações ao Longo dos Séculos
O complexo do Ver-o-Peso passou por diversas adaptações ao longo dos séculos, especialmente durante a Belle Époque, quando Belém se tornou um centro cosmopolita. Reformas significativas, como a construção do Mercado de Ferro e do Mercado Francisco Bolonha, ambos inaugurados em 1901, trouxeram novas influências arquitetônicas ao espaço.
Com sua estrutura de ferro importada e elementos art nouveau, o Mercado de Ferro se destaca como um marco de inovação e beleza. Atualmente, o complexo, que abrange 25 mil m², não se limita apenas ao comércio, mas também é um polo de vida social e intercâmbio cultural, onde as práticas tradicionais dos feirantes criam laços simbólicos e econômicos entre a comunidade.
O Ver-o-Peso, além de ser um ícone comercial, é um espaço vital para a identidade paraense, abrindo suas portas para todos que desejam conhecer um pouco mais sobre a rica cultura e as tradições da região. Em novembro, o mercado será ainda mais destacado ao sediar a COP30, reforçando seu papel central na vida cultural de Belém.
