Falta de Atendimento e Consequências Trágicas
Os moradores de Belém e de cidades vizinhas do estado do Pará enfrentam uma grave crise de saúde no Hospital Pronto-Socorro Mário Pinotti, situado na travessa 14 de Março, no bairro do Umarizal. Relatos de familiares de pacientes e profissionais de saúde indicam que a qualidade do atendimento vem se deteriorando drasticamente. A suspensão do atendimento de neurocirurgiões é um dos pontos mais críticos, levando a situações extremas, onde pacientes que necessitam de intervenções cirúrgicas cerebrais não recebem a assistência adequada. Muitos aguardam atendimento em leitos improvisados nos corredores, e as consequências têm sido mortais.
A história de Maria Alice Morais, uma idosa de 89 anos, exemplifica essa realidade alarmante. Após ser admitida no PSM na última quarta-feira (08) sem receber o devido atendimento, sua família recebeu notícias desoladoras. “Ela ficou jogada em uma maca no corredor, como se fosse um animal. Somente um dia depois, finalmente a atenderam. O diagnóstico foi um AVC com danos severos”, compartilha indignada a neta, Valdineia Moraes. A falta de medicamentos e cuidados básicos agrava ainda mais a situação de pacientes que chegam com emergências médicas, muitas vezes sem esperança de uma solução eficaz.
O Impacto da Suspensão de Serviços Especializados
O Acidente Vascular Cerebral (AVC) é uma das principais razões de internação no PSM da 14 de Março. Contudo, a ausência de neurocirurgiões, que suspendem atendimento devido a atrasos nos pagamentos pela Prefeitura Municipal de Belém (PMB), tem deixado os pacientes sem opção. O caso do adolescente Eloan Guilherme Soares, de apenas 15 anos, revela a gravidade dessa situação. Ele faleceu aguardando transferência para uma Unidade de Terapia Intensiva (UTI), e sua família responsabiliza a negligência do sistema público de saúde. Carlos Eduardo Silva, Defensor Público do Estado, tenta obter respostas da Secretaria Municipal de Saúde sobre a interrupção dos serviços, mas até o momento não obteve retorno.
“O que temos visto são pessoas buscando auxílio para medicamentos e leitos para neurocirurgia, mas os atendimentos não estão sendo realizados. Uma situação inaceitável”, lamenta Silva. A Defensoria Pública do Estado pede que a omissão do governo na oferta desses serviços seja reconhecida, destacando que a falta de neurocirurgiões representa uma ameaça à vida dos pacientes, especialmente crianças e adolescentes que precisam de atendimento urgente.
Demandas e Pressão da Comunidade
De acordo com a Associação dos Servidores da Saúde no Município de Belém (Assesmub), antes da suspensão do atendimento, eram registrados de 40 a 50 pedidos de neurocirurgias diariamente. A presidente da associação, Rosana Rocha, critica a decisão da secretaria que retirou o serviço essencial: “A decisão de fechar um atendimento centenário, que é primordial para a população, foi um erro. O Hospital Mário Pinotti é o único que oferece esse suporte à comunidade.” Ela também revelou que há uma ordem interna para não receber pacientes que precisem de neurocirurgias, uma tentativa de encobrir a ausência dos especialistas.
A indignação da família de Maria Alice é compartilhada por muitos. “Não existe atendimento! Estamos vendo pessoas caindo no chão, sem assistência e com um odor insuportável nos corredores”, diz Valdineia. O problema se agrava ainda mais, com a central de leitos negando transferências baseadas na idade dos pacientes, priorizando os mais jovens.
Dificuldades em Outras Especialidades
A crise no Hospital Pronto-Socorro da 14 de Março não se limita às neurocirurgias. Pacientes de outras especialidades também relatam dificuldades extremas. Lana Varela, que acompanha sua avó Lucilene, diagnosticada com câncer, vivenciou a ineficiência do sistema. Apesar de uma decisão judicial determinando sua transferência, a família teve que esperar dias para que a ordem fosse cumprida. “A situação é caótica. Recebemos a autorização judicial, mas a transferência só foi concretizada uma semana depois”, reclama.
Outro exemplo é o de Marcos Ferreira França, que aguarda há dez dias uma cirurgia no pulmão. Seu filho, Felipe Leal, expressa sua frustração com a falta de recursos e estrutura no hospital: “Aqui é como um matadouro. Não há nem cadeira de rodas disponível, e os acompanhantes também não têm onde se acomodar”, desabafa.
Próximos Passos e Esperanças
Uma audiência de conciliação foi agendada para a próxima segunda-feira (13) na 6ª Vara Judiciária do Pará, onde representantes do Ministério Público Federal, Conselhos Regionais de Medicina, Odontologia e Psicologia, além da Defensoria Pública da União e do Estado, se reunirão com a Prefeitura Municipal de Belém. O objetivo é discutir a situação crítica do hospital e buscar soluções para a crise na saúde pública local, que tem gerado sofrimento e desespero entre os pacientes e suas famílias.
