O Papel dos Guardiões de Sementes na Preservação Cultural
Aos 17 anos, Rosana Martuchelli Nogueira, hoje com 51, sentiu um desconforto ao observar as transformações no Vale dos Lúcios, em Teresópolis (RJ). Filha de agricultores, ela presenciou o empenho de seus pais em preservar as sementes a cada nova colheita. “Quando comecei a trabalhar na lavoura, percebi que, ao plantar feijão, meu pai pegava as sementes do armário, deixando o restante para consumo”, relembra. A resistência das sementes ao tempo, segundo seu pai, era atribuída a um “pó do solo”, uma afirmação que mais tarde se confirmou por meio de pesquisas da Embrapa.
Rosana explica: “Descobrimos que existe um microrganismo que protege feijões e milhos do caruncho. Meu pai, sem entender, utilizava esse microrganismo e fazia o trabalho certo”. Nos dias atuais, ela se dedica à preservação das sementes ancestrais de milho e feijão, que não passaram pelos processos modernos de melhoramento genético, como os híbridos e transgênicos que exigem a recompra a cada safra.
Um Resgate Necessário das Sementes Crioulas
Leia também: Guardiões de Sementes: Preservando a Cultura Alimentar em Pequenas Propriedades
Fonte: alagoasinforma.com.br
Leia também: Belém em Foco: Disputa pelo Prêmio de Melhor Experiência em Turismo Gastronômico
Fonte: cidaderecife.com.br
Incomodada com a crescente popularidade das sementes híbridas na sua região, Rosana iniciou um resgate das sementes crioulas, um esforço que se mantém forte até hoje. Mil quilômetros ao sul, em Palmeira (PR), a agricultora Ana Andréa Jantara compartilha preocupações semelhantes.
“Percebi que as sementes crioulas estavam cada vez mais raras. Quis resgatá-las para que meus filhos também pudessem ter acesso a esses alimentos”, destaca Ana, que conserva mais de 200 variedades de grãos, legumes e hortaliças. Sua iniciativa a transformou em uma referência local, recebendo sementes de outros produtores que encerraram seus plantios.
A Importância Cultural e Econômica das Sementes Tradicionais
De acordo com o engenheiro agrônomo Leandro Barradas, professor no curso técnico de Agronomia da Escola Técnica Estadual de Andradina, as sementes crioulas são vitais por sua rusticidade e adaptabilidade ao ambiente de origem, fatores resultantes de gerações de seleção natural. Barradas afirma que essas sementes garantem soberania e autonomia aos pequenos agricultores.
“A semente híbrida impõe um pacote tecnológico que aumenta o custo de produção. Em Andradina, o cultivo de milho transgênico varia de R$ 5 mil a R$ 6 mil por hectare, enquanto o milho crioulo no sistema agroecológico custa de R$ 1 mil a R$ 2 mil”, explica o agrônomo.
A Luta pela Biodiversidade e Sustentabilidade
O resgate e a preservação das sementes crioulas não são apenas uma questão econômica, mas também uma luta pela biodiversidade. Cada semente, na visão de Ana, transporta a história de um povo, de pessoas e comunidades inteiras. Com a crescente demanda por alimentos exóticos e sustentáveis, a valorização das sementes tradicionais se torna ainda mais relevante.
Assim, iniciativas como as de Rosana e Ana se destacam não apenas pela preservação de um patrimônio cultural e familiar, mas também pela contribuição ao meio ambiente e à economia local. Em tempos em que a globalização ameaça diversidade agrícola, os guardiões de sementes se tornam verdadeiros protagonistas na luta pela soberania alimentar e pela conservação da cultura alimentar brasileira.
