Setores do Pará reagem à tarifa de 25% dos Estados Unidos
O anúncio da imposição de uma tarifa adicional de 25% sobre produtos brasileiros pelos Estados Unidos acendeu um alerta entre os setores produtivos do Pará. Confirmada pelo Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR) em 15 de junho, a medida entra em vigor no dia 22 de julho. Ela foi estabelecida após investigação com base na Seção 301 da Lei de Comércio de 1974, instrumento usado pelo governo norte-americano para identificar possíveis barreiras comerciais.
Apesar do receio inicial, representantes das cadeias produtivas paraenses avaliam que os efeitos do tarifaço podem variar conforme o segmento. Produtos como carne bovina, petróleo, aeronaves e celulose ficaram de fora da sobretaxa, enquanto outros setores ainda aguardam definições. Para os exportadores do Pará, o cenário reforça a necessidade de diversificar mercados e fortalecer a competitividade internacional.
Carne paraense fica fora da tarifa e escapa de impacto imediato
O setor de carne no Pará não deve ser atingido diretamente pela tarifa dos EUA. Segundo Daniel Acatauassu Freire, presidente do Sindicato da Indústria da Carne e Derivados do Estado do Pará (Sindicarne-PA), o estado ainda não possui habilitação para exportar carne ao mercado norte-americano.
“A carne ficou de fora do tarifaço. O Pará não é habilitado para exportar carnes para os Estados Unidos”, explicou Acatauassu. Essa exclusão evita pressão extra sobre uma cadeia que busca ampliar sua participação no comércio internacional.
Açaí enfrenta incertezas em novas negociações
O setor do açaí, importante na bioeconomia amazônica, acompanha com atenção os desdobramentos da tarifa. Emerson Menezes, consultor agrícola da Associação dos Produtores de Açaí da Amazônia (Amaçaí), afirma que contratos já firmados devem seguir normalmente, mas as novas vendas podem enfrentar dificuldades.
“Um aumento como esse impacta as novas negociações. Contratos anteriores serão honrados”, disse Menezes. Ele destaca que buscar novos mercados internacionais exige tempo e planejamento. “Esperamos que o governo brasileiro atue diplomaticamente junto aos Estados Unidos para minimizar os efeitos negativos sobre todas as cadeias produtivas afetadas”, complementou.
Jhoy Gerald Rochinha Jr., diretor da Associação da Cadeia Produtiva do Açaí de Belém (ACPAB), ressaltou que o setor ainda avalia os impactos no início da safra. “Vamos começar o armazenamento do açaí e sentir a reação do mercado. As exportações são essenciais para o consumo do fruto no Pará”, afirmou.
Para Rochinha Jr., um aumento nos custos pode ser repassado ao consumidor final. “A ideia é compensar o aumento da tarifa no preço. Quanto maior a taxa, maior será o valor final pago pelo produto”, explicou.
Setor de pescado aguarda definições sobre tarifa
O segmento de pescado ainda não tem confirmação sobre a inclusão dos produtos na nova tarifa. Eloy Araújo, diretor técnico da Associação dos Produtores de Pescados da Amazônia Azul (ABRAPPAA), acompanha a situação com atenção.
“Não temos confirmação de que o pescado será atingido. Qualquer tarifa adicional complica ainda mais as empresas brasileiras, que já enfrentam alta carga tributária”, afirmou Araújo. A entidade aguarda mais informações para avaliar ações específicas.
Madeireiros do Pará veem impacto menor, mas mantêm cautela
O setor madeireiro do Pará avalia que os impactos da tarifa podem ser menores do que o esperado, graças às exceções mantidas pelo governo dos EUA para certos produtos de madeira. Deryck Martins, diretor executivo da Associação das Indústrias Exportadoras de Madeira do Estado do Pará (Aimex), reforça a importância do mercado norte-americano para o segmento.
“Nossa avaliação preliminar indica que os efeitos para o setor madeireiro paraense tendem a ser menos severos, já que o documento final manteve exceções para diversos produtos, reconhecendo sua relevância para a economia dos EUA”, explicou Martins.
O mercado americano representa cerca de 40% das exportações madeireiras do Pará, principalmente produtos de maior valor agregado, como pisos, molduras e itens beneficiados.
Apesar disso, a medida gera insegurança entre os exportadores. “A tarifa aumenta a incerteza, especialmente porque o documento menciona questões relacionadas ao desmatamento e prevê possíveis revisões futuras”, alertou o diretor da Aimex.
Para enfrentar esse cenário, a estratégia passa pela diversificação de mercados e fortalecimento de práticas sustentáveis. “Há uma tendência de ampliar esforços comerciais na Ásia, Oriente Médio e América Latina, ao mesmo tempo em que se consolida presença nos mercados tradicionais, como EUA e Europa”, concluiu Martins.
Faepa destaca diversidade produtiva do Pará como vantagem
A Federação da Agricultura e Pecuária do Estado do Pará (Faepa) aponta que a diversidade da produção local pode mitigar impactos da tarifa. Guilherme Minssen, diretor técnico da entidade, destaca a capacidade de adaptação do estado às mudanças no comércio internacional.
“A Faepa, junto à equipe técnica da CNA, Apex Brasil e mercados do Agro, tem ampliado clientes e fornecedores em diferentes continentes. O Brasil possui seis biomas e uma produção muito diversificada”, afirmou Minssen.
Ele ressalta que o Pará possui diversas cadeias com potencial exportador. “Talvez seja um dos estados brasileiros menos afetados, graças ao seu amplo leque produtivo”, avaliou.
Minssen destacou também segmentos competitivos como carnes, pescado, frutas tropicais e cacau. “O Pará produz carnes bovina e bubalina de qualidade, pescado com menor custo e frutas tropicais de excelência, como açaí, abacaxi, cacau e citros, que têm mercado em expansão”, afirmou.
Setores reforçam importância do diálogo e da diversificação
Apesar das diferentes avaliações, as entidades paraenses concordam que o diálogo diplomático e a diversificação comercial são essenciais para conter prejuízos. O setor madeireiro espera a continuidade das negociações bilaterais.
“A expectativa da Aimex é que o diálogo comercial entre Brasil e Estados Unidos prossiga, possibilitando ajustes futuros que reduzam as incertezas”, afirmou Martins.
Mineração e cacau ainda aguardam posicionamento
O Grupo Liberal aguarda retorno do Simineral (Sindicato das Indústrias Minerais do Estado do Pará) e da Funcacau (Fundo de Apoio à Cacauicultura do Estado do Pará) sobre os impactos da tarifa.
