Arte Pará 2026 e a Sala Carmen Sousa
Em 5 de novembro, o Museu do Estado do Pará (MEP) abrirá suas portas para a 42ª edição do Arte Pará, evento promovido pelo Grupo Liberal que destaca a produção artística da região. Nesta edição, um espaço dedicado à artista visual Carmen Sousa será inaugurado, celebrando sua trajetória e importância na arte amazônica. A Sala Carmen Sousa surge de uma pesquisa detalhada conduzida pelas professoras Marisa Mokarzel, curadora de artes, e Rosangela Britto, museóloga e artista visual, que resgata o legado de uma artista que marcou a história cultural do estado.
Coordenação, curadoria e inscrições
O Arte Pará 2026 está sob a coordenação da Fundação Romulo Maiorana (FRM) e tem como curadora a artista visual Keyla Sobral. O projeto é viabilizado pela Lei Federal de Incentivo à Cultura (Lei Rouanet), com patrocínio das empresas Phebo e Vale. As inscrições para artistas interessados em participar da mostra seguem abertas até 31 de julho, oferecendo uma plataforma para circulação e visibilidade da arte regional.
Quem foi Carmen Sousa
Nascida em Lisboa em 22 de abril de 1908, Carmen Sousa mudou-se para Belém aos sete anos e naturalizou-se brasileira em 1942, aos 34 anos. Seu trabalho é objeto de pesquisa há anos, destacando-se artigos e orientação acadêmica desenvolvidos por Rosangela Britto. Atualmente, a pesquisa para a Sala homenageando a artista acontece no Museu da Universidade Federal do Pará (MUFPA), que abriga um acervo com mais de 1.000 peças provenientes da irmã de Carmen, Helena Sousa, e do pesquisador Vicente Salles. O diretor do MUFPA, Tadeu Costa, expressa satisfação em apoiar essa iniciativa, que valoriza a memória cultural local.
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O que o público encontrará na Sala
Na Sala Carmen Sousa, visitantes poderão apreciar a diversidade da produção artística da artista, que inclui esculturas, pinturas, desenhos, fotografias e documentos que revelam seu processo criativo. A homenagem destaca sua relevância, especialmente por ter sido uma mulher artista premiada em salões oficiais de Belas Artes do Pará nos anos 1940. Em 1949, Carmen conquistou a Medalha de Bronze no Salão Nacional de Belas Artes do Rio de Janeiro com a escultura em bronze “Cabeça de Negra Paula”. Ela também integrou o Grupo Utinga, ao lado de nomes como Ruy Meira e Benedicto Mello, e se destacou como professora e pioneira em esculturas na região.
Obras selecionadas para a exposição
Dentre as peças escolhidas para compor a Sala no Arte Pará 2026, estão um retrato de Carmen pintado pela artista Malissa; pinturas a óleo da artista sobre cenas do Boulevard Castilhos França e da Vila Bolonha, datadas dos anos 1940; e esculturas em gesso como “A Velha Cabocla”, “A Portuguesa” e “A Cozinheira Celeste”, criadas no final da década de 1940. Também serão exibidos processos de confecção de medalhas produzidas por Carmen nas décadas de 1930 e 1940.
O painel Cristo Crescente e o legado artístico
Uma das obras mais emblemáticas é o painel em baixo-relevo de gesso “Cristo Crescente”, realizado em 1949 para a fachada da Ação Católica — atual sede da Cúria Metropolitana da Arquidiocese de Belém, localizada na avenida Governador José Malcher. Com cerca de 19 metros de comprimento por 4,5 metros de altura, o painel passou por alterações na década de 1960, mas teve a escultura da “Boa Pastora” restaurada ao local original em 1999, graças à iniciativa da Fundação Romulo Maiorana.
Significado e contexto da obra de Carmen Sousa
A professora Rosangela Britto ressalta a importância do legado de Carmen Sousa para a cena das artes plásticas na Amazônia, especialmente nas décadas de 1940 e 1950, período em que a artista recebeu diversas premiações. Seu trabalho reflete uma sólida formação acadêmica e realista, abrangendo retrato, paisagem, figura humana, pintura histórica e sacra, ao mesmo tempo em que dialoga com elementos modernistas. Essa pluralidade contribui para uma compreensão mais ampla da produção artística regional.
Reconhecimento das mulheres na história da arte
Rosangela destaca que a presença feminina na historiografia das artes plásticas e visuais frequentemente foi negligenciada, assim como seus acervos em museus. A inclusão da obra de Carmen Sousa no Arte Pará permite ao público e pesquisadores revisitar e valorizar essa contribuição artística, oferecendo novos olhares a uma produção estética muitas vezes subestimada. Essa iniciativa reforça o papel do Arte Pará como espaço de memória e circulação cultural, conectando passado e presente da arte paraense.
