Expansão do cacau preserva a floresta amazônica
O cultivo de cacau na Amazônia avança sem causar desmatamento recente, segundo levantamento realizado pela Embrapa em parceria com outras instituições. O mapeamento identificou 121 mil hectares plantados no Pará e Rondônia, sendo que quase toda essa área ocupa pastagens e terrenos já modificados anteriormente, sem invadir a mata nativa.
Esse dado ganha relevância diante das exigências ambientais internacionais que impactam diretamente a cadeia produtiva do cacau, especialmente na exportação. A comprovação da origem sustentável da produção é fundamental para atender aos rigorosos critérios do mercado global.
Pará lidera com forte presença da agricultura familiar
O Pará destaca-se como o principal produtor da Amazônia, com 116.436 hectares cultivados espalhados por 61 municípios — um crescimento de 33% em apenas dois anos, saindo de 87.309 hectares em 2022. Municípios como Medicilândia, Uruará, Brasil Novo, Altamira e Tomé-Açu concentram as maiores áreas de cultivo, sendo os quatro primeiros situados na região da Transamazônica. Tomé-Açu é reconhecido pela adoção de sistemas agroflorestais.
A agricultura familiar tem papel central na produção paraense, com 31.843 áreas mapeadas, das quais quase 85% possuem até 5 hectares. Essa configuração revela a importância do pequeno produtor na cadeia do cacau.
Entretanto, o levantamento indica que 63% da expansão recente ocorreu em monocultivo a pleno sol, enquanto 37% adotaram sistemas agroflorestais. Para os pesquisadores, essa tendência evidencia a busca dos produtores pelo retorno financeiro imediato, destacando a necessidade de políticas públicas que incentivem práticas agroflorestais que promovem maior diversidade e benefícios ambientais.
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Rondônia registra seu primeiro mapeamento de cacau
Rondônia conta agora com um mapeamento completo da cacauicultura, somando 5.340 hectares distribuídos em 51 municípios. Diferentemente do Pará, 62% dessa área está em sistemas agroflorestais, enquanto 38% em cultivo a pleno sol. Pequenos produtores predominam, com 38.108 áreas cadastradas e 75% delas com até 5 hectares. As maiores áreas estão nos municípios de Jaru, Porto Velho, Theobroma, Ouro Preto do Oeste e Mirante da Serra.
Garantia contra o desmatamento recente
O estudo cruzou os dados de cultivo com informações do TerraClass e Prodes, sistemas do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) que monitoram o desmatamento. O resultado mostrou que 96% da área de cacau no Pará e 98% em Rondônia ocupam locais desmatados antes de 2020.
Este aspecto é crucial para o comércio internacional, pois a União Europeia proíbe a importação de commodities originadas de áreas desmatadas após 31 de dezembro de 2020, conforme o regulamento antidesmatamento (EUDR). Apenas 3,9% da área no Pará e 2% em Rondônia foram implantadas em locais desmatados depois dessa data, índice que reforça a sustentabilidade da produção local.
Cacau sob sombra preserva a floresta e gera renda
O levantamento ainda identificou 11.444 hectares no Pará e cerca de 149 hectares em Rondônia onde o cacau é cultivado sob sombra direta de floresta nativa. Esse sistema preserva a cobertura florestal ao mesmo tempo em que oferece fonte de renda para os produtores.
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Adriano Venturieri, pesquisador da Embrapa Amazônia Oriental e coordenador do estudo, destaca o papel estratégico do cacau para a região. Além de fomentar a economia familiar, o cultivo contribui para recuperar solos degradados e revitalizar áreas de pasto abandonadas, devolvendo produtividade ao ambiente.
“Este trabalho é fundamental para garantir a rastreabilidade exigida pela legislação brasileira e para atender às demandas do mercado internacional”, afirma Venturieri. Ele ressalta que o desafio atual é expandir a produção com qualidade ambiental e competitividade global.
Políticas públicas e assistência técnica para o desenvolvimento sustentável
Vitor Stella, representante do CocoaAction Brasil, reforça que conhecer os locais e sistemas de cultivo do cacau permite direcionar políticas públicas, investimentos e assistência técnica de forma eficiente. O objetivo é ampliar a renda dos produtores sem repetir padrões de desmatamento observados em outras cadeias produtivas na Amazônia.
“Saber para onde a cultura avança e sob quais condições ajuda a identificar obstáculos, orientar políticas e aplicar recursos onde são mais necessários”, explica Stella, apontando para a importância da informação no planejamento sustentável da cacauicultura na região.
