V Festival de Pássaros e Bichos do Pará destaca tradição cultural no Theatro da Paz
Entre os dias 26 e 30 de junho, o Theatro da Paz, em Belém, será o cenário de uma das celebrações mais significativas da cultura popular paraense. Com entrada gratuita, o V Festival de Pássaros e Bichos do Pará reunirá 23 grupos tradicionais de diferentes municípios para apresentar ao público a riqueza dos pássaros juninos e dos cordões de bichos. Essa manifestação artística é exclusiva do Pará, considerada única no Brasil e reconhecida como um patrimônio cultural imaterial.
A abertura do festival está marcada para esta sexta-feira (26), às 18h, com uma apresentação conjunta de todos os Porta-Pássaros e Porta-Bichos. Organizado pela Associação Folclórica e Cultural Colibri de Outeiro, com o apoio do Governo do Pará, o evento chega à sua quinta edição consolidado como um dos principais espaços de valorização do patrimônio cultural da região.
Origem dos Pássaros Juninos ligada ao Theatro da Paz e ao ciclo da borracha
A Mestra Laurene Ataíde, responsável pela organização do festival e guardiã do Cordão do Pássaro Colibri, é uma das maiores referências na preservação dessa manifestação cultural. Segundo ela, os Pássaros Juninos nasceram diretamente no contexto do Theatro da Paz durante o ciclo econômico da borracha. “Essa manifestação só existe no estado do Pará”, destaca Laurene.
Ela explica que, na época em que companhias europeias apresentavam óperas no teatro, os barões da borracha frequentavam o espaço acompanhados de trabalhadores que cuidavam de suas famílias e vigiavam suas filhas. Esses trabalhadores, enquanto aguardavam na área superior chamada “Paraíso”, passaram a observar as apresentações e a reproduzir, de forma popular, elementos dessas encenações em suas comunidades. Assim, a tradição começou a se espalhar pelo interior do estado, alcançando diversas cidades além de Belém.
Pássaros Juninos e Cordões de Bichos: uma cultura viva da Amazônia
Os Pássaros Juninos e os Cordões de Bichos mesclam teatro, música, dança, figurinos elaborados e narrativas populares, configurando uma das expressões culturais mais originais da Amazônia. Para Laurene, preservar essa tradição é fundamental para que as futuras gerações mantenham contato com uma manifestação artística exclusiva no país. “É muito importante que a gente não deixe morrer essa manifestação, porque ela é nossa”, reforça a mestra.
Além da coordenação do festival, Laurene desenvolve há anos projetos de resgate de grupos tradicionais que estavam desaparecidos. Entre as iniciativas está o retorno da Garça Briosa, na comunidade Rio da Prata, em Abaetetuba, que voltou a se apresentar após 52 anos. Em Baião, o Pássaro Japiim retornou após mais de trinta anos afastado, e em Cachoeira do Arari, o Guaritauá voltou às apresentações depois de quatro décadas. O trabalho da mestra também envolve a criação de novos grupos, como a Arara Azul, em Canaã dos Carajás, e a Arara Vermelha, em Parauapebas, que já integra a programação do festival e se apresentou no Theatro da Paz.
Grupos revitalizados marcam presença no festival e homenagens à memória cultural
Na edição deste ano, estarão presentes diversos grupos resgatados, como Pavãozinho do Pará e Borboleta Encantada, de Abaetetuba; Maçarico, de Salinópolis, que voltou a se apresentar após cerca de 40 anos; Tentém, de Curuçá; e Borboleta Azul, de Carananduba, em Mosqueiro. A Borboleta Azul, que ficou 72 anos sem apresentações, abriu o festival em 2024 e retorna nesta edição graças à revitalização promovida pela equipe de Laurene.
O festival também presta homenagem à professora Julieta Malcher de Castro (1930-1985), uma das maiores responsáveis pela valorização estética dos Pássaros Juninos. Guardiã do grupo Rouxinol, o mais antigo ainda ativo em Belém, Julieta dedicou cerca de 55 anos à manifestação cultural. Ela introduziu figurinos sofisticados, bordados e pedrarias que transformaram a estética dos espetáculos. Sob sua liderança, o Rouxinol conquistou dez títulos consecutivos em concursos oficiais, entre as décadas de 1960 e 1970, ganhando projeção nacional e tornando-se referência para gerações de brincantes.
Festival realizado com apoio do Governo do Pará reforça cultura comunitária
Apesar das dificuldades, o festival deste ano foi organizado sem patrocínio da iniciativa privada. “A realização só foi possível graças à parceria com o Governo do Estado, que cedeu o Theatro da Paz para receber as apresentações dos 23 grupos participantes”, destaca Laurene. Para ela, ocupar um dos espaços culturais mais importantes do Pará é um reconhecimento da força da cultura comunitária e do papel dos mestres e brincantes na preservação das tradições populares.
Desde a primeira edição, realizada em 2016 no Teatro Gasômetro, o Festival de Pássaros e Bichos vem ganhando força. Passou pelo Teatro Margarida Schivasappa e, nas últimas edições, consolidou sua sede no Theatro da Paz. Agora, em sua quinta edição, o encontro reafirma o compromisso de fortalecer essa manifestação genuinamente paraense, reunindo grupos da capital e do interior em um mesmo palco.
“O maior número de brincadeiras de pássaros está em Belém, mas eles vivem em várias regiões do estado. Cada grupo que conseguimos resgatar representa uma parte da nossa história que continua viva”, conclui a Mestra Laurene Ataíde.
