Tradição que Transforma a Natureza em Arte
O miriti, palmeira típica da Amazônia, ganha vida nas mãos de artesãos que transformam seus talos em peças culturais e econômicas. Em Abaetetuba, no Pará, José Roberto Ferreira, conhecido como Mestre Beto, mantém viva essa tradição que atravessa gerações em sua família. Desde a infância, ele aprendeu a moldar o miriti, criando brinquedos e objetos que carregam a identidade e a história da região.
Conexão Profunda com o Círio de Nazaré
A relação de Mestre Beto com o miriti está ligada a uma das maiores celebrações do Pará: o Círio de Nazaré. Durante anos, a produção dos brinquedos começava em agosto e seguia até as festividades em Belém, momento em que as peças alcançavam milhares de visitantes e compradores. Para o artesão, o miriti representa não apenas a matéria-prima da floresta, mas também o saber transmitido e a renda ligada ao território.
“Minha família está perto de completar 90 anos nessa atividade, uma das pioneiras a trabalhar com o miriti. Aos 11 anos herdei essa arte. Via meu pai trabalhando e, na época, a produção era apenas para o Círio de Nazaré, porque o brinquedo de miriti não tinha visibilidade em outras épocas. Comecei a fazer meus primeiros brinquedos aos 11 anos e estou nessa atividade há 42 anos, sempre ligada ao Círio”, lembra Mestre Beto.
Bioeconomia e Sustentabilidade no Dia a Dia
Hoje, a produção de Mestre Beto vai além do período que antecede o Círio de Nazaré. O artesanato com miriti tornou-se ocupação diária, com o artesão produzindo e também ensinando a técnica a outros. Ele leva o material para onde vai, garantindo que a arte e a renda continuem mesmo fora da banca.
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“O amor por essa arte foi passando de meu pai para mim. Quando ele faleceu, dediquei-me ainda mais ao miriti para manter vivo o nome dele e da minha mãe, Maria Raimunda, que foi a primeira mulher em Abaetetuba a produzir brinquedos de miriti”, conta o artesão.
O Valor Ambiental e Econômico do Miriti
Conhecido também como buriti, o miriti é uma palmeira abundante na Amazônia, usada para diversas finalidades pelas comunidades locais. No artesanato, seus talos leves são trabalhados para criar brinquedos e objetos que retratam cenas e animais da região. Mestre Beto destaca que, antes, parte do miriti era descartada nos rios. Com o crescimento do artesanato, a palmeira passou a ser valorizada, gerando renda para quem a cultiva.
“Tratamos o miriti como ouro. Cada pedaço vira uma joia, uma biojoia. O manejo é sustentável: a palmeira não é derrubada, apenas podada. De dez braços, quatro são retirados, e seis ficam para crescer saudáveis, garantindo a continuidade da planta”, explica.
Preservação do Conhecimento e Futuro do Artesanato
Para Mestre Beto, o futuro do artesanato depende da preservação do miriti. Ele defende políticas públicas que incentivem o manejo sustentável e o plantio da palmeira em áreas ribeirinhas, assegurando o acesso à matéria-prima.
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“Os governos devem apoiar o manejo sustentável, não acabar com ele”, enfatiza.
Em Abaetetuba, iniciativas locais aproximam crianças do Festival do Miriti, incentivando o contato com os brinquedos produzidos pelos artesãos. Essa aproximação é fundamental para que o conhecimento não desapareça com o tempo.
Legado Vivo e Paixão pela Bioeconomia Amazônica
“O miriti é minha vida. O maior orgulho são meus filhos e essa atividade. Se fico um dia sem fazer uma peça, sinto que o dia não rende. Amo esse artesanato e os brinquedos que crio. Sou reconhecido pela minha arte, e isso me traz muito orgulho”, afirma Mestre Beto, reforçando a ligação entre a bioeconomia e a cultura amazônica.
