Entenda os fatores que fazem o chocolate continuar caro nesta Páscoa
Apesar da queda acentuada do preço do cacau tanto no Brasil quanto nas bolsas internacionais, o consumidor ainda enfrenta preços elevados para ovos e chocolates nesta Páscoa. De acordo com dados do IBGE, até a metade de março, a inflação relacionada ao chocolate em barra e bombons atingiu uma alta de 24,8% nos últimos 12 meses.
No Brasil, a situação é inversa para os produtores de cacau. Na Bahia, por exemplo, a média recebida pelos agricultores atualmente é de R$ 167 por arroba, um valor que representa menos de 25% do que foi registrado em março do ano passado, quando o preço atingiu R$ 718. No Pará, a queda é igualmente dramática, com indústrias e comerciantes pagando apenas R$ 9,50 pelo quilo do cacau, em comparação aos R$ 44 do mesmo período de 2022.
Por que essa discrepância nos preços?
O descompasso nos preços pode ser explicado pelo fato de que as amêndoas utilizadas na produção dos chocolates desta Páscoa foram adquiridas quando o cacau ainda era comercializado a valores recordes no mercado internacional. Segundo Lucca Bezzon, analista de mercado da StoneX Brasil, atualmente, o cacau está sendo negociado na Bolsa de Nova York a cerca de US$ 3 mil por tonelada, uma queda significativa em relação aos US$ 8 mil registrados há um ano.
“As fabricantes de chocolate costumam comprar a manteiga e o pó de cacau com antecedência, variando de 6 a 12 meses”, explica Bezzon. Para a produção atual, a indústria pagou entre US$ 6 mil e US$ 10 mil por tonelada pelos subprodutos do cacau, um valor que se reduziu para cerca de US$ 3 mil.
Enquanto o produtor vê a receita diminuir, o consumidor enfrenta preços mais altos, uma situação que tem beneficiado a indústria. Carlos Cogo, sócio-diretor da Cogo Inteligência em Agronegócio, explica que, após anos com margens de lucro estreitas devido a um déficit global de cacau, a indústria agora prioriza a recuperação dessas margens antes de repassar qualquer redução de custos ao consumidor. Segundo ele, espera-se que os preços comecem a cair nos supermercados a partir do segundo semestre deste ano.
Fatores que impulsionaram o aumento de preços
O preço elevado do chocolate nas prateleiras também é consequência de uma significativa queda nas colheitas de cacau, tanto no Brasil quanto em grandes produtores africanos, como Costa do Marfim e Gana, que enfrentaram desafios climáticos e pragas em 2024. Embora a indústria brasileira utilize predominantemente amêndoas nacionais, uma parte da matéria-prima é importada, especialmente da África, para atender à demanda. Em média, 80% do cacau utilizado é nacional, enquanto 20% provém do exterior.
“Sem essas duas fontes de fornecimento, os preços domésticos tiveram um aumento considerável”, observa Bezzon. Ele acrescenta que as regiões com maior poder aquisitivo, como Europa e Estados Unidos, estão competindo pelo pouco cacau africano disponível, o que intensifica a escassez nos mercados.
Expectativas de recuperação na colheita
No entanto, já no ano passado, os preços do cacau começaram a cair para os produtores, especialmente após julho, impulsionados pela recuperação das colheitas tanto no Brasil quanto em países africanos. O Itaú BBA reportou que a produção mundial cresceu 11% na safra 2024/25, devido a condições climáticas favoráveis. A tendência é de alta na colheita deste ano.
Cogo destaca que outro fator que tem influenciado a redução dos preços no campo é o aumento nas importações, facilitados pela desvalorização do dólar. Bezzon, da StoneX, acrescenta que a queda dos preços se deve mais à falta de demanda do que a uma recuperação da produção, ressaltando que a alta excessiva dos preços do cacau forçou as indústrias a alterar as fórmulas dos chocolates, reduzindo o tamanho das barras e substituindo a manteiga de cacau por outras gorduras.
Protestos nas regiões produtoras
A drástica redução dos preços no campo provocou protestos em várias regiões produtoras. Em fevereiro, agricultores interditaram a BR 101 em Ibirapitanga, na Bahia, em protesto contra a importação e os baixos preços do cacau, exigindo do governo um maior controle sanitário sobre as amêndoas importadas. Em resposta, seis dias depois, o Ministério da Agricultura suspendeu temporariamente a importação de cacau da Costa do Marfim, alegando riscos de pragas.
Segundo o governo, a suspensão foi motivada pela possibilidade de que grãos de cacau da Libéria e Guiné, que não têm autorização para exportação ao Brasil, estivessem sendo misturados aos lotes da Costa do Marfim importados. Na ocasião, Carlos Cogo destacou que a decisão do governo precisaria ser respeitada, mas interpretou a ação como uma resposta à pressão do setor produtivo para conter a queda nos preços do cacau no país.
