A riqueza da cultura amazônica na Quadra Junina de Belém
Em Belém, a Quadra Junina é conhecida pela sua animação durante o mês de junho. Entre as celebrações, destacam-se duas manifestações culturais que carregam raízes profundas na Amazônia, especialmente no Pará: os pássaros juninos, uma forma singular de teatro popular amazônico, e a Festança do Pau Maravilhoso, evento tradicional que atrai devotos e o público geral no município de Marituba, região metropolitana da capital paraense. Além dessas expressões, a festa também é marcada por quadrilhas, cordões de bicho e uma diversidade de ritmos que mesclam influências nordestinas e locais, como o forró, o carimbó e o brega.
O Pássaro Junino Tucano: tradição e resistência cultural
Um dos pássaros juninos mais emblemáticos em Belém é o Tucano, que tem sua sede no bairro do Telégrafo. O grupo é liderado por Iracema Jesus de Oliveira, produtora cultural de 89 anos e presidente do Grupo Cultural Francisco Oliveira. Reconhecido como Ponto de Cultura Heranças do Velho Chico e Pontão de Cultura Mestra Iracema Oliveira, o grupo administra o Pássaro Tucano e mantém viva essa tradição única.
Segundo Iracema, o pássaro junino é uma forma de teatro popular musicado, um melodrama fantasia que narra histórias envolvendo a caçada e a cura de um pássaro ou bicho, seja para ofertar a uma nobreza ou para devolvê-lo à sua dona. “Os pássaros juninos são exclusivos do Estado do Pará e só existem aqui”, ressalta.
Embora originários de Belém, grupos semelhantes existem em outros municípios paraenses, geralmente chamados de cordões de bicho ou cordões de pássaros. Esses se diferenciam dos pássaros juninos por apresentarem encenações em versos e sem saída de cena, destaca a produtora.
O pássaro junino representa uma das manifestações culturais mais significativas do Pará. Ele reúne teatro, música, dança e lendas regionais, mesclando elementos europeus com personagens e costumes amazônicos. Essa combinação fortalece a identidade cultural do Pará e preserva tradições populares transmitidas de geração em geração.
Além de ser uma forma de entretenimento, o pássaro junino funciona como símbolo de resistência cultural e celebra a diversidade da Amazônia, valorizando o imaginário, a história e a relação do povo com a floresta e a natureza. Esses grupos são reconhecidos como patrimônio cultural imaterial do Estado do Pará pela Lei Estadual nº 7.352/2009, destacando sua importância histórica, artística e social.
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História centenária e espetáculo atual do Tucano
O Pássaro Junino Tucano completará 100 anos em 2027. Fundado em 1927 por Cipriano no bairro da Cremação, o grupo teve em sua trajetória nomes importantes como Laércio Gomes, Francisco Oliveira e a própria Iracema Oliveira, que assumiu a guarda do Tucano em 1981.
Para a Quadra Junina deste ano, o Tucano apresentará o espetáculo “O Destino de uma Feiticeira”, que narra conflitos familiares, segredos e vinganças envolvendo a feiticeira Aretuza e o fazendeiro Rodolfo. A trama aborda temas como amor proibido, reconciliação e superação de forças malignas, com autoria de Francisco Oliveira e adaptação de Mestra Iracema Oliveira.
As apresentações do Tucano em junho são diversas, abrangendo programações oficiais do Governo do Estado e da Prefeitura de Belém, além de festas comunitárias e paroquiais no bairro do Telégrafo e arredores. O calendário pode ser acompanhado pelas redes sociais do grupo, especialmente no Instagram do Pontão de Cultura.
Um evento tradicional do bairro é o encerramento da Quadra Junina, marcado para 5 de julho de 2026 em frente à sede do grupo, com um show gratuito apoiado pelo projeto “Abre Ala Sai da Frente Que o Tucano Quer Passar”, contemplado pelo edital da Fundação Cultural do Pará (FCP) e pela Política Nacional Aldir Blanc (PNAB). O Dia do Folclore também contará com apresentações na sede do Tucano.
A Festança do Pau Maravilhoso em Marituba: 31 anos de tradição
Na Região Metropolitana de Belém, a Festança do Pau Maravilhoso é outra expressão cultural que movimenta o mês de junho. Com 31 anos de existência, a festa é coordenada por Wandré Dantas, que destaca sua importância para a comunidade local.
A celebração ocorre em três etapas: a marcação do Pau em uma reserva florestal, realizada apenas pelos diretores da Festança; a retirada do Pau Marcado, acompanhada do plantio de mudas e com ampla participação comunitária; e, finalmente, o grande cortejo pelas ruas de Marituba, onde o público é convidado a acompanhar a tradição e degustar o “Sumo do Pau” — uma bebida feita com cachaça, gengibre, leite condensado e cravinhos.
Originada em 1995 a partir de um encontro entre amigos e o apoio da comunidade, a Festança é patrimônio cultural imaterial do Pará, reconhecida pela Assembleia Legislativa do Estado, com participação do deputado Ronie Silva, autor do projeto de lei.
A programação deste ano está marcada para 21 de junho, com decoração temática alusiva à Copa do Mundo, reforçando o vínculo entre cultura popular e eventos contemporâneos. O traslado do Pau Maravilhoso acontecerá a partir das 10h, partindo da rua Meyre Tavares até a Praça Matriz, com retorno à via pública.
Uma novidade deste ano é a presença do Boi Maravilhoso no cortejo, que também terá atividades recreativas para crianças, como quebra pote, corrida do saco e corrida com ovo. No palco da Festança, o público poderá apreciar apresentações de quadrilha, carimbó e shows musicais com artistas como Sanny Gomes, Haroldo Reis e Valbinho dos Teclados, além de DJs.
Cultura viva e acessível para a população
Essas manifestações culturais da Quadra Junina, tanto em Belém quanto em Marituba, são exemplos vivos da riqueza e diversidade da cultura amazônica. Elas preservam tradições, reforçam a identidade local e promovem o acesso da população a eventos que celebram o patrimônio imaterial do Estado do Pará.
Além disso, essas festas fomentam a circulação artística regional, movimentando espaços comunitários e fortalecendo o vínculo entre artistas, grupos culturais e público. A agenda para os próximos meses promete manter essa vitalidade com eventos gratuitos e abertos, estimulando o interesse pela cultura popular e suas múltiplas expressões.
