A Trajetória Cultural da Viola Caipira
A viola caipira, um instrumento que ressoa profundamente na identidade musical do interior do Brasil, tem uma história fascinante que começa no mundo árabe. Segundo estudiosos, a jornada desse instrumento iniciou-se nas terras árabes, atravessou os castelos medievais de Portugal e, mais tarde, cruzou o oceano Atlântico nas caravelas, até se estabelecer como um ícone da cultura rural brasileira e dar voz aos trabalhadores do campo.
Romildo Sant’Anna, doutor em cultura caipira pela Universidade de São Paulo (USP), explica que a viola tem suas raízes no alaúde, um instrumento árabe que era utilizado na corte medieval. Com o passar dos anos, o alaúde foi se popularizando e ganhou versões mais simples e rústicas. ‘Esse alaúde a canivete, popular e muito rústico, é a origem da vihuela, que depois acabou originando a palavra viola’, esclarece o pesquisador.
A Península Ibérica, onde a presença árabe foi marcante entre os séculos VIII e XIV, viu o alaúde se tornar popular entre os portugueses. Assim, é provável que o instrumento tenha chegado ao Brasil junto com os navegadores. ‘Na carta de Pero Vaz de Caminha, ele não menciona a viola, mas é possível que suas cordas tenham chegado ao nosso país, sopradas pelo vento do Atlântico’, afirma Sant’Anna.
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Essa reportagem faz parte de uma série especial sobre a música sertaneja, exibida pelo EPTV 1, em celebração ao concurso cultural ‘ÉPra Cantar’, que premiará o grande vencedor com a oportunidade de se apresentar na Festa de Peão de Barretos, o maior rodeio da América Latina.
A Voz do Caipira e a Difusão da Viola
No Brasil, os jesuítas desempenharam um papel crucial na popularização da viola, utilizando a música como uma ferramenta de catequização dos povos nativos. Assim como ocorreu na Europa, o instrumento começou a ser fabricado artesanalmente, adquirindo características distintas nas diversas regiões do país. A viola nordestina, por exemplo, apresenta uma caixa de ressonância maior, enquanto a versão caipira tem uma cintura mais fina.
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Com o advento do século XIX, a viola encontrou seu verdadeiro representante: o caipira, trabalhador das roças que alternava entre o labor árduo e momentos de lazer em torno da fogueira. Foi nesse contexto que surgiram as modas de viola, cujas letras narravam as vivências do campo. ‘A moda caipira conta histórias’, afirma Sant’Anna. Essas narrativas se espalhavam com os boiadeiros, que, segundo o pesquisador, ‘não traziam apenas notícias, mas também poesia, novas canções e composições’.
O Impacto das Duplas e a Evolução Musical
O formato de canto em dupla, uma das características marcantes do sertanejo, também se origina da prática jesuíta. Como não era viável levar corais completos para as roças, a música foi reduzida a duas vozes, uma aguda e outra grave. ‘A voz aguda imita a voz feminina, pois as mulheres não podiam cantar e permaneciam em casa. Essa realidade gerou uma adaptação do coral da igreja’, explica Sant’Anna.
A inovação mais significativa ocorreu com o advento das novas tecnologias. A chegada da gravação em disco demandou que os violeiros ajustassem as longas modas de viola para canções mais curtas, com menos minutos de duração. Em 1929, o pesquisador Cornélio Pires realizou a primeira gravação de música caipira com a canção ‘Jorginho do Sertão’, interpretada pela dupla Mariano e Caçula. Apesar de ter apenas três minutos de duração, a música foi fundamental para moldar e influenciar por décadas o gênero musical mais popular do Brasil: o sertanejo.
Assim, a viola, que carrega séculos de história e evolução, continua a ecoar nas tradições do interior e a desempenhar um papel vital na identidade cultural brasileira.
