O Impacto do “Inverno Amazônico” nas Periferias de Belém
O fenômeno conhecido como “Inverno Amazônico” é uma parte intrínseca da cultura de Belém, mas nos últimos anos, essa expressão deixou de ser uma marca de identidade cultural e se transformou em um sinal alarmante de perdas constantes. De acordo com o Relatório Científico Amazônia Jovem 2025, o estado do Pará se destaca no triste ranking de emergências da Amazônia Legal, registrando 225 decretos de calamidade entre 2020 e 2025. Essa situação levanta a questão: como as grandes obras de infraestrutura voltadas para eventos internacionais podem desconsiderar as necessidades básicas de drenagem e saneamento nas áreas periféricas da cidade, perpetuando o racismo ambiental?
“Os problemas que enfrentamos não são frutos da natureza. Os alagamentos decorrem da falta de drenagem, manutenção e limpeza de esgotos e canais urbanos, onde muitas famílias de origem negra e de comunidades tradicionais foram deslocadas e realocadas, ocupando áreas propensas a inundações em rios e igarapés que foram aterrados em nome do ‘desenvolvimento’,” revela o geógrafo Cauã Lima, que também é mestrando na Universidade Federal do Pará e morador de uma das periferias mais afetadas pelas chuvas intensas.
O Estado do Pará e a Crise Climática
O Pará vive uma intensa crise climática, acompanhada de uma governança adaptativa deficiente. Os números de decretos de emergência são alarmantes e refletem uma vulnerabilidade crescente, com o estado respondendo por mais de 38% dos decretos na Amazônia Legal em 2025. Em 2021, foram 14 decretos relacionados a chuvas intensas, número que saltou para 28 em 2023. O ano de 2024 trouxe novos desafios, como vendavais, inundações, secas severas e riscos antrópicos, incluindo o transporte de materiais perigosos.
Leia também: Explorando a Violência e as Periferias: Curso Online do CineSesc Aprofunda o Cinema Nacional
Fonte: indigenalise-se.com.br
Leia também: Festival ‘Arte e Cultura nas Periferias’: Funjope Importante Apoio à Cultura Local
Fonte: ocuiaba.com.br
Desafios da Infraestrutura na Região
Especialistas de instituições como o AdaptaBrasil MCTI e Instituto COJOVEM alertam que o modelo de desenvolvimento adotado no Pará pode estar intensificando os efeitos da crise climática. O estado apresenta uma baixa capacidade de adaptação a desastres relacionados à água, o que é corroborado por sua história. Os significativos investimentos em rodovias, hidrelétricas e no setor imobiliário estão deslocando recursos que poderiam ser direcionados para o saneamento e a conectividade das comunidades locais.
Os pesquisadores Ruth Cardoso e Leonardo Pantoja, estudiosos da dinâmica imobiliária na Amazônia, afirmam que “eixos urbanos que são valorizados e equipados com infraestrutura atraem investimentos imobiliários. Em contrapartida, as áreas mais afastadas permanecem sem investimentos públicos adequados, resultando em baixa infraestrutura e, consequentemente, em uma maior vulnerabilidade socioambiental.” Este cenário destaca ainda mais como o mercado imobiliário transforma desigualdades socioespaciais em preços.
Consequências do Avanço Urbano
Leia também: Aeroporto de Ribeirão Preto ganha status internacional com obras modernizadas
Fonte: aquiribeirao.com.br
O desmatamento urbano impulsionado por esse modelo de desenvolvimento prejudica a infiltração de água no solo, substituindo o que antes era absorvido pela floresta por enxurradas devastadoras em áreas pavimentadas sem drenagem. Embora o estado tenha implementado avisos de emergência via mensagens de celular, mais da metade da população vive a mais de 10 quilômetros de postos de saúde ou locais com sinal 4G, dificultando o socorro em casos de desastres naturais.
Vulnerabilidades e Desigualdades Estruturais
A complexidade dos impactos climáticos em Belém é acentuada por desigualdades sociais. Mulheres enfrentam um fardo adicional ao ter que percorrer grandes distâncias em busca de água potável em uma cidade que raciona esse recurso. As enchentes não apenas afetam a infraestrutura, mas também impactam o uso de banheiros em casa e a higiene pessoal. O Observatório Nacional de Dinâmicas Imobiliárias (ONDI) revela que “os alagamentos em Belém têm um efeito direto na desigualdade da produção do espaço urbano, depreciando imóveis em áreas com maior vulnerabilidade.”
Além disso, em Parauapebas, uma amostra de 121 crianças indígenas Xikrin apresentou contaminação por metais pesados, aumentando os riscos à saúde em tempos de crises ambientais. A juventude negra das periferias, por sua vez, enfrenta uma perda significativa de dias letivos e acesso a áreas de lazer, com 73% dos jovens relatando a redução da cobertura vegetal em suas comunidades.
Propostas e Esperanças para o Futuro
As juventudes da Amazônia clamam por mudanças e por um novo modelo de gestão. Segundo Cauã Lima, é essencial que as soluções para a emergência climática sejam construídas com a participação das comunidades locais e em colaboração com as instituições. Além disso, é crucial promover políticas públicas baseadas em evidências reais, considerando as especificidades relacionadas a gênero, raça e classe social. O Núcleo de Pesquisa do Instituto COJOVEM defende uma Transição Justa, abordando aspectos como microcrédito socioambiental e capacitação em tecnologias sociais para jovens de áreas afetadas.
A adaptação climática em Belém não deve se limitar a uma infraestrutura que impressiona. Se a cidade não enfrentar o racismo estrutural e garantir que o saneamento básico chegue às áreas vulneráveis, a população continuará a sofrer as consequências, muitas vezes injustas, das chuvas, que são, na verdade, sintoma de uma falha política e coletiva.
