Pressão do El Niño sobre a inflação em Belém
O fenômeno climático conhecido como El Niño, caracterizado pelo aquecimento anormal das águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial, tem trazido impactos significativos na economia do Pará, especialmente em Belém. Entre junho de 2023 e o início de 2024, período em que o El Niño esteve em atividade, observou-se uma mudança no comportamento da inflação local. Dados do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), medido pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), indicam que a inflação geral em Belém passou de -0,09% em junho de 2023 para 0,54% em março de 2024. No mesmo intervalo, a inflação de alimentos e bebidas saltou de -0,67% para 1,32%, mostrando uma forte pressão sobre o custo dos alimentos. Caso o fenômeno persista, especialistas alertam para a possibilidade de novas altas nos índices inflacionários.
Impactos na produção agropecuária e logística
O economista Nélio Bordalo destaca que o fortalecimento do El Niño tem efeito direto na inflação ao afetar a produção agropecuária e aumentar os custos logísticos em várias regiões do Brasil. No Sul, o excesso de chuvas prejudica a produtividade, enquanto o Norte e parte do Nordeste enfrentam estiagens, o que reduz a oferta de alimentos e eleva os preços ao longo da cadeia produtiva.
No Pará, esse impacto é especialmente sensível devido à dependência do transporte fluvial para o deslocamento de cargas e à necessidade de abastecimento por alimentos oriundos de outras regiões do país. O aumento dos custos de produção, frete e atrasos na entrega refletem diretamente no preço final para o consumidor, pressionando principalmente as famílias de menor renda.
Alimentos são os mais afetados
Bordalo ressalta que alimentos como hortaliças, frutas, legumes, arroz, milho, feijão, café e produtos de origem animal, como carnes, leite e ovos, são os mais vulneráveis às variações climáticas. A redução na oferta e o aumento do custo de produção causam aumentos frequentes nos preços desses itens.
Vulnerabilidade do setor alimentício e riscos para Belém
Se o El Niño intensificar-se, Belém poderá vivenciar nova pressão inflacionária, especialmente no grupo de alimentação e bebidas, repetindo o cenário de 2023 e 2024. O fenômeno altera o regime de chuvas e eleva as temperaturas na Amazônia, afetando a produção agropecuária, reduzindo a oferta e elevando os custos de transporte e logística. Esses fatores são repassados ao consumidor final, reforçando a vulnerabilidade da capital paraense.
Embora o Pará tenha produção local de frutas, mandioca, pescado e produtos da floresta, uma parte significativa dos alimentos consumidos vem de outras regiões do Brasil. Assim, qualquer aumento no custo da produção agrícola nacional ou do transporte rodoviário impacta rapidamente os preços praticados no comércio local. A grande extensão territorial amazônica e a dependência do transporte fluvial tornam o abastecimento ainda mais suscetível durante períodos de seca intensa, ampliando os efeitos sobre o custo de vida.
Leia também: Verão amazônico pressiona preços de bebidas e frutas no Pará em 2026
Leia também: Chuva e frio intenso em julho: entenda o impacto do El Niño e ciclones no Sul do Brasil
Fonte: soudesaoluis.com.br
Dependência logística intensifica impacto na capital
Segundo Bordalo, a dependência do abastecimento externo torna Belém uma das capitais mais sensíveis às oscilações nos preços dos alimentos. Quebras de safra, redução da oferta e dificuldades no transporte fluvial e rodoviário fazem com que os preços reajam com rapidez, tornando a alimentação o principal vetor da inflação local.
Pressão sobre famílias de baixa renda
Everson Costa, diretor técnico do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos – Pará (Dieese-PA), alerta que o El Niño tende a pressionar a inflação dos alimentos ao reduzir a oferta agrícola e aumentar custos de produção e transporte. Embora não seja possível prever um percentual exato de alta, o cenário já reflete nos preços em Belém, com produtos como tomate e feijão registrando aumentos expressivos em 2026.
As famílias de baixa renda são as mais impactadas, pois destinam uma parcela maior do orçamento para alimentação. No Pará, metade do salário mínimo é comprometido com a compra da cesta básica. Trabalhadores que recebem até dois salários mínimos, aposentados e beneficiários de programas sociais enfrentam maior vulnerabilidade diante da alta dos preços dos alimentos.
Desafios logísticos para a indústria local
Alex Carvalho, presidente da Federação das Indústrias do Estado do Pará (Fiepa), destaca que o setor industrial também pode enfrentar dificuldades devido à dependência da logística hidroviária para escoamento da produção. A redução dos níveis dos rios, combinada com o aumento do risco de estiagens e queimadas, pode limitar a navegação no Corredor do Arco Norte, principal rota de exportação e movimentação industrial do Estado.
Essa restrição eleva os custos do frete, atrasa exportações e impacta toda a cadeia produtiva, desde o abastecimento de insumos até a entrega ao mercado. Setores como mineração, metalurgia, indústria madeireira, alimentos e bebidas, papel e celulose e o agronegócio são os mais afetados.
Impactos ambientais reforçam necessidade de sustentabilidade
A Fiepa alerta ainda para os efeitos sobre serviços ecossistêmicos essenciais para diversas cadeias produtivas, como disponibilidade de água, estabilidade climática e conservação florestal. A situação reforça a importância da produção sustentável, da gestão eficiente dos recursos hídricos, da prevenção a incêndios e do fortalecimento das cadeias produtivas locais.
Leia também: El Niño 2024: Por que o fenômeno pode ser o mais intenso em décadas e seus impactos econômicos
Fonte: londrinagora.com.br
Leia também: El Niño promete aumentar temperaturas no inverno da Bahia e agravar seca no semiárido
Fonte: vitoriadabahia.com.br
Perspectivas para o campo e alerta meteorológico
Por outro lado, Guilherme Minssen, diretor da Federação da Agricultura e Pecuária do Pará (Faepa), considera que o setor agrícola poderá não sofrer impactos negativos significativos, baseando-se no histórico climático recente. Ele destaca bons índices de produção na região do Marajó, como a natalidade bubalina e a abundância de alevinos de pirarucu, além da valorização do açaí devido a alagamentos na produção.
Entretanto, o meteorologista José Raimundo Abreu alerta para os riscos do El Niño na produção agropecuária do Pará. A redução das chuvas pode atrasar o plantio de culturas de ciclo curto e aumentar custos, afetando diretamente os preços dos alimentos. Produtores sem irrigação ficam mais expostos a perdas, e a seca pode prejudicar a pecuária, especialmente no Marajó, onde a escassez de água aumenta o risco para o rebanho.
Segundo Abreu, o monitoramento constante das condições climáticas será fundamental para que os produtores planejem suas atividades e minimizem prejuízos. Ele destaca que o período seco deve se estender em regiões como Capitão Poço, Paragominas, Bonito, Marituba e Belém, aumentando a vulnerabilidade da produção.
Plano municipal para enfrentar o El Niño
Em resposta ao cenário, a Prefeitura de Belém iniciou a elaboração do Plano Municipal de Enfrentamento ao El Niño. O objetivo é preparar a cidade para reduzir os impactos do fenômeno sobre a população, infraestrutura e economia local. O plano envolve 35 órgãos municipais, estaduais e federais, que definirão ações integradas de prevenção, adaptação e resposta até o início de 2027.
Na esfera econômica, a estratégia busca minimizar prejuízos causados por estiagens, calor extremo e queimadas, que podem afetar serviços públicos, mobilidade, abastecimento, produtividade e setores como comércio, construção civil e agricultura urbana. O plano também visa aumentar a resiliência da infraestrutura urbana, reduzindo custos com danos climáticos e fortalecendo a capacidade da cidade de manter suas atividades econômicas em períodos críticos.
