Impactos do El Niño na agricultura do Pará
A expectativa de um El Niño mais intenso nos próximos meses acende um alerta para a agricultura do Pará, especialmente para o Oeste do Estado, região mais vulnerável aos efeitos do fenômeno. A pesquisadora da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), Lucietta Martorano, destaca que a redução das chuvas e o aumento das temperaturas podem trazer perdas na produção agrícola, influenciar os preços dos alimentos e elevar o risco de queimadas, afetando diretamente as comunidades que dependem dos rios e da agricultura familiar.
Como o fenômeno altera o clima regional
O El Niño provoca o aquecimento das águas do Oceano Pacífico, o que intensifica a evaporação e altera a circulação atmosférica. Parte dessa umidade desloca-se para o Sul do Brasil, enquanto o Oeste do Pará sofre com a diminuição das chuvas. Essa mudança resulta em secas mais severas, queda das folhas das plantas por falta de água e maior predisposição a incêndios florestais. Dados apontam 90% de probabilidade de El Niño forte neste ano, com 69% de chance de intensificação entre setembro e novembro, indicando um período crítico para o setor agrícola.
Consequências para agricultores e comunidades
Sem irrigação, as culturas anuais e perenes ficam vulneráveis, o que pode comprometer a produtividade de alimentos essenciais como mandioca, açaí e diversas frutas. Agricultores familiares, que dependem exclusivamente da chuva, enfrentam maior risco de perda total da safra. Além das dificuldades econômicas, a seca prolongada eleva a concentração de material particulado na atmosfera, gerando problemas respiratórios nas populações locais. As comunidades indígenas e tradicionais, distantes dos centros urbanos, são as mais afetadas pela redução dos recursos hídricos.
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Principais culturas e estratégias de adaptação
Produtores de grande porte contam com sistemas de irrigação para mitigar os efeitos da seca, mas agricultores familiares raramente dispõem dessa estrutura. Cultivos como milho, que passam pela fase de granação no início da seca, podem perder potencial produtivo se não houver água suficiente. Experiências anteriores, como a seca causada pelo El Niño de 2015, mostram que a queda no Produto Interno Bruto (PIB) pode ser tão severa quanto a registrada na pandemia da Covid-19, refletindo o impacto econômico da seca na agricultura e pecuária regional.
Preços dos alimentos e impactos econômicos
A redução da oferta de alimentos tende a elevar os preços, pressionando o orçamento dos consumidores. Projetos como o IrrigaPote, da Embrapa, ilustram como a irrigação pode transformar perdas em ganhos, com produtores vendendo frutos como limão e acerola a preços bem acima da média durante o período seco. Contudo, a falta de irrigação em cultivos essenciais, como o açaí e a mandioca, compromete a produção e eleva os custos desses alimentos no mercado.
Orientações da Embrapa e preparação para o fenômeno
A Embrapa oferece ferramentas como o Zoneamento de Risco Climático (ZARC) para auxiliar agricultores na tomada de decisões e minimizar perdas. É fundamental que os produtores acompanhem os alertas climáticos e ajustem seus calendários agrícolas, antecipando plantios ou colheitas quando possível. Culturas perenes exigem planejamento para garantir o fornecimento de água, respeitando a disponibilidade hídrica e evitando o desperdício.
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Extensão do El Niño e cuidados adicionais
O El Niño pode se estender além deste ano, retardando as chuvas previstas para a região e exigindo mudanças na estratégia agrícola. O aumento das temperaturas também pode favorecer a proliferação de insetos como gafanhotos, agravando os desafios para a produção e a saúde pública. A população deve se atentar para o aumento dos riscos de doenças respiratórias e arboviroses, como a dengue hemorrágica, especialmente em áreas com água parada.
Recomendações para a sociedade e setor produtivo
Além de seguir orientações científicas, a população deve evitar práticas que aumentem o risco de incêndios, como a queima de lixo. O respeito às informações técnicas e o planejamento antecipado são essenciais para reduzir os impactos do El Niño na agricultura e na vida das comunidades do Pará. A interação entre ciência, produtores e sociedade é fundamental para enfrentar os desafios climáticos e preservar a economia regional.
