Capacitação de agentes na identificação de madeira e carvão
A Universidade do Estado do Pará (Uepa) promove, durante novembro e dezembro, duas turmas do curso de Identificação Anatômica de Madeira e Carvão Vegetal de Espécies Comerciais da Amazônia. As aulas serão ministradas no Campus VIII, em Marabá, e destinam-se a agentes que atuam na fiscalização ambiental e controle do transporte de produtos florestais na região.
A primeira turma, entre 9 e 13 de novembro, reunirá 15 participantes: nove policiais rodoviários federais da Delegacia da PRF em Marabá, quatro servidores do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) e dois da Secretaria Municipal de Meio Ambiente de Marabá (Semma). Já a segunda edição, de 30 de novembro a 4 de dezembro, será voltada a outros 15 policiais rodoviários federais de diferentes delegacias no Pará. Cada curso terá carga horária de 32 horas.
Metodologia e objetivos do treinamento
Organizado pela Xiloteca “Joaquim Ivanir Gomes” (JIGw), em parceria com o Ministério Público do Estado do Pará (MPPA), o curso combina aulas teóricas e exercícios práticos. Os participantes aprendem a reconhecer características anatômicas de madeiras e carvão vegetal, a identificar grupos de espécies e a confrontar o material transportado com os dados constantes nos documentos florestais.
Essa capacitação permite detectar divergências entre a espécie declarada e a efetivamente encontrada nas cargas, um desafio complexo diante da vastidão da Amazônia, da diversidade de espécies e das semelhanças entre algumas madeiras. A análise anatômica funciona como uma triagem inicial que indica possíveis irregularidades e orienta o encaminhamento de amostras para exames mais específicos.
Pesquisa aplicada à fiscalização ambiental
No Campus VIII, a Uepa mantém estudos voltados à identificação de produtos florestais no Laboratório de Ciência e Tecnologia da Madeira e na Xiloteca JIGw. Com um acervo superior a 1.500 amostras, o espaço serve tanto para pesquisas quanto para a formação profissional. O trabalho do grupo em identificação forense de madeira começou em 2017.
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O professor Luiz Eduardo de Lima Melo, do Departamento de Ciências Florestais e curador da Xiloteca, coordena a equipe. Segundo ele, a pesquisa garante base técnica para a triagem das cargas e para a verificação da compatibilidade entre documentos e espécies transportadas.
Em 2025, laudos elaborados pela equipe abrangeram 457,86 metros cúbicos de madeira e 1.173,5 metros cúbicos de carvão vegetal fiscalizados. As análises revelaram casos em que o material não correspondia às informações documentais, como cargas de carvão indicadas como provenientes de eucalipto, mas que apresentavam características de espécies nativas.
Integração entre pesquisa e fiscalização
Para aproximar o conteúdo do curso das situações reais enfrentadas em operações, pesquisadores analisaram 573 Termos Circunstanciados de Ocorrência (TCOs) registrados pela PRF entre 2023 e 2025. O levantamento identificou as espécies e grupos taxonômicos mais frequentes nas cargas fiscalizadas, orientando o foco do treinamento no sudeste do Pará.
Desafios da conservação e controle do desmatamento
O curso ocorre em meio a desafios persistentes no combate ao desmatamento e à exploração ilegal de madeira. Segundo dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), divulgados em outubro de 2026, a Amazônia perdeu 3.335 quilômetros quadrados de floresta entre agosto de 2025 e julho de 2026, uma redução de 41,8% em relação ao período anterior. No Pará, a área desmatada foi de 1.130 quilômetros quadrados, com queda de 45,3%. Mesmo assim, o estado permanece com a maior área desmatada entre as unidades da Federação da Amazônia Legal.
O monitoramento do transporte e da comercialização de madeira e carvão vegetal é parte das estratégias de controle da cadeia produtiva florestal. A comparação entre a carga e os documentos auxilia na detecção de informações incompatíveis, dificultando a venda de materiais irregulares.
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Conteúdo e práticas do curso
Durante a capacitação, os participantes praticarão a observação de características macroscópicas da madeira, preparação das superfícies, uso de lupa conta-fios, chaves de identificação e ferramentas digitais. O treinamento também abordará os limites da análise visual e os procedimentos para encaminhamento de amostras a exames especializados.
O programa inclui estudos sobre anatomia da madeira, nomenclatura científica e comercial, identificação de grupos relevantes para fiscalização, documentação florestal, cadeia de custódia, coleta de amostras e produção de evidências técnicas. Exercícios práticos na Xiloteca envolvem triagem de madeira e carvão, além da verificação de incompatibilidades entre o material e as espécies declaradas nos documentos de transporte.
Participação de especialistas e resultados esperados
O curso contará com uma palestra do mestre Carlos Eduardo da Silva Fernandes sobre padrões operacionais e fragilidades na cadeia de custódia da madeira na Amazônia Oriental, além de uma mesa-redonda sobre fiscalização e perícia de produtos florestais. Pesquisadores e profissionais experientes da Polícia Federal, Polícia Científica de Rondônia e do Instituto de Defesa Agropecuária do Mato Grosso também integrarão a formação.
Essa iniciativa visa aproximar a pesquisa acadêmica da rotina da fiscalização, ampliando a capacidade dos agentes em identificar irregularidades no transporte e comercialização de madeira e carvão.
