Reinventando a Relação com as Águas na Amazônia
“Aqui era tudo rio, melhor infância e adolescência que dava para ter”, recorda Valdirene Rodrigues, 58 anos, residente da Passagem Marcílio Dias no bairro do Guamá, em Belém (PA). Ao longo de mais de quatro décadas, ela testemunhou as transformações urbanas que moldaram a cidade. Assim como em muitas localidades amazônicas, a capital paraense foi originalmente construída em harmonia com os rios. Entretanto, ao longo do tempo, essa conexão foi perdida: as águas foram canalizadas, soterradas e asfaltadas, resultando em uma paisagem urbana que ignora a sua própria natureza. A cada temporada de chuvas, essa alienação se torna evidente, pois a água, obstinada, busca seu caminho.
Para reverter cenários como o de Valdirene, pesquisadores e gestores estão desenvolvendo uma nova abordagem urbana, onde a ideia não é combater a água com concreto, mas sim utilizar a própria natureza como solução. A proposta que ganha força visa a implementação de “parques inundáveis” com açaizais em áreas críticas, permitindo que a vegetação nativa absorva o excesso hídrico, ao mesmo tempo em que proporciona geração de renda e segurança alimentar.
A realidade da rua de Valdirene é marcada por um dilema: antes uma vila e, atualmente, uma passagem entre duas vias de grande movimento, Conselheiro e Mundurucus, que outrora abrigavam rios. Nos últimos 20 anos, esses cursos d’água se tornaram subterrâneos. A moradora relembra que sua casa, anos atrás, ergueu-se sobre palafitas feitas de madeira, uma construção comum na região, onde muitos, assim como sua família, se deslocaram do interior do estado em busca de melhores oportunidades.
“Era tudo mato, tinham vários animais por aqui, como mussum e matá matá”, conta Valdirene, referindo-se a espécies amazônicas que eram abundantes na região. Com o crescimento urbano, essas criaturas foram se distanciando. “Na verdade, desejávamos a urbanização, pois isso significava ter melhor qualidade de vida. O asfalto e a tubulação da Mundurucus vieram, mas, com isso, o rio começou a ser soterrado pelos próprios moradores, utilizando caroços de açaí e terra”, explica.
A lógica de urbanização baseada no concreto e o esquecimento das bacias hidrográficas acabaram levando ao desmoronamento de trechos da passagem, que agora se encontram mais baixos do que o restante da rua. A situação se agrava com a chegada das chuvas, quando a água do canal da Mundurucus invade as casas. Valdirene expressa sua frustração: “Sempre foi assim, muitos políticos prometeram resolver isso, mas nada mudou. Aprendi a contornar a situação, conhecendo os caminhos que posso usar para evitar o alagamento”.
