A Complexidade de Conservar o Brasil
Araras-azuis-de-lear sobre o mandacaru, em meio aos imponentes paredões de arenito do Raso da Catarina — cada uma dessas aves representa uma história viva, um argumento sólido contra o esquecimento. A recente expedição ao Raso da Catarina trouxe à tona não apenas a beleza natural, mas também as tensões que cercam a conservação ambiental. Jorge Velloso Vianna, superintendente da Fundação Biodiversitas, compartilhou sua visão sobre a interseção entre ciência, política e economia, revelando como esses elementos se entrelaçam na luta pela preservação da biodiversidade brasileira.
A Fundação Biodiversitas, que opera desde 1989, acumula uma vasta experiência na conservação do meio ambiente no Brasil, com foco especial na proteção da arara-azul-de-lear. Para Velloso, a instituição atua em um cenário onde o tempo da natureza, a dinâmica política e as exigências do mercado frequentemente não se coincidem. “Gerir uma organização como a Biodiversitas é um exercício de harmonização de cronogramas diversos, sempre priorizando a natureza como nosso principal cliente”, afirma Velloso.
Os investimentos e parcerias que a fundação estabelece são vistos como meios para alcançar um fim maior: a proteção eficaz das espécies e a integridade dos biomas. Nesse sentido, a governança da Biodiversitas se esforça para assegurar que as pressões econômicas não se sobreponham à urgência biológica. “Entregamos à natureza a salvaguarda de seu patrimônio, ao mesmo tempo em que garantimos a nossos parceiros que seu apoio resultará em ações de conservação mensuráveis e cientificamente fundamentadas”, destaca.
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A Tradução de Ciência em Ação
Velloso explica como a fundação tem contribuído para transformar o conhecimento científico em ações concretas. Segundo ele, o momento em que a ciência se torna um ativo estratégico se dá quando os dados gerados orientam políticas públicas e investimentos. “Reduzimos incertezas e oferecemos uma direção clara para aqueles que decidirem sobre o território. Esse ‘poder de tradução’ nos diferencia no cenário da conservação”, ressalta.
Ele observa que a biodiversidade está se tornando uma variável não apenas ambiental, mas também econômica e geopolítica. “O Brasil começa a entender que precisa valorizar os serviços ecossistêmicos, embora ainda falte uma implementação financeira eficaz para remunerá-los adequadamente. Essa compreensão é fundamental para a conservação”, explica.
Desafios da Conservação no Brasil
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Fonte: soudebh.com.br
Embora haja uma crescente conscientização sobre a importância da biodiversidade, Velloso alerta que o Brasil ainda enfrenta desafios significativos. A conservação fragmentada, segundo ele, é insuficiente em um contexto de crise climática. “Proteger a arara-azul-de-lear demanda uma abordagem que considere o manejo da paisagem e a inclusão das comunidades locais”, afirma.
Velloso enfatiza que o Brasil ainda está longe de pensar a conservação de forma sistêmica. “Precisamos transitar de modelos isolados para ‘corredores de conservação e desenvolvimento’ que incorporem a biodiversidade como motor da economia regional”, sugere. Ele acredita que a governança integrada é essencial para lidar com as tensões entre conservação e desenvolvimento econômico.
O Futuro da Conservação no Brasil
O superintendente da Biodiversitas também aponta que o maior desafio atualmente é garantir a continuidade do financiamento para as ações de conservação. “Sustentar uma estrutura técnica de excelência requer um modelo de governança que atraia investimentos privados, sempre com total transparência”, diz. Para ele, o custo da conservação deve ser visto como um investimento para mitigar riscos globais.
Velloso defende que, embora o conceito de conservação esteja se deslocando para um foco em regeneração, a proteção de áreas remanescentes deve continuar sendo a prioridade. “Não podemos falar em regeneração sem preservar os ecossistemas que ainda existem. A vigilância e manutenção dessas reservas são fundamentais para nossa estratégia”, afirma.
Ele conclui que a atuação da fundação visa conectar pessoas e instituições em torno de objetivos comuns, enfatizando que a proteção de espécies só se torna efetiva quando se alia pesquisa científica à mobilização social e ao investimento consciente. A meta é que a governança coletiva permita que a conservação dialogue com o desenvolvimento socioeconômico das regiões.
