Concentração de Mercado e Impactos na Exportação de Pescado
A exportação de pescado no Pará vem enfrentando obstáculos estruturais que têm dificultado o crescimento sustentável do setor. Segundo representantes do Centro Internacional de Negócios (CIN) da Federação das Indústrias do Estado do Pará (Fiepa) e do setor produtivo local, dois fatores principais limitam esse avanço: a alta concentração dos compradores externos e o baixo nível de processamento industrial da produção local. Mesmo após a recente auditoria técnica realizada pela União Europeia (UE) no Brasil, finalizada em 18 de junho de 2026, as expectativas sobre uma reabertura do mercado europeu para o pescado paraense são moderadas, com impactos considerados pequenos e de curta duração.
Dependência de Poucos Destinos e Riscos Econômicos
Dados do Monitora COMEX de Peixes Paraenses, divulgados pelo CIN da Fiepa, mostram que no primeiro trimestre de 2026 os Estados Unidos e Hong Kong foram responsáveis por 80,45% do valor total exportado do pescado paraense. Sozinhos, os Estados Unidos lideraram com 43,25% do faturamento, seguidos por Hong Kong, que representou 37,20%, e a China, com 8,57%. Juntos, Estados Unidos e China movimentaram US$ 8,28 milhões com o embarque de 1.365,8 toneladas de pescado. Essa concentração expõe o setor a riscos cambiais e geopolíticos que podem impactar diretamente o Produto Interno Bruto (PIB) do estado.
Cassandra Lobato, gerente do CIN/Fiepa, destaca que essa dependência de poucos parceiros comerciais torna o mercado sensível a variações nos valores negociados, refletindo diretamente no resultado das exportações. “Quando grande parte das exportações está direcionada a poucos destinos, qualquer oscilação afeta imediatamente o desempenho total”, explica.
Perfil dos Produtos Exportados e Baixo Beneficiamento
Uma análise detalhada da Fiepa revela que mais de 90% do faturamento das exportações de pescado paraense vem de produtos com processamento limitado ou comercializados inteiros. O pargo inteiro congelado lidera as vendas, com US$ 6,2 milhões (aproximadamente R$ 32,4 milhões), representando 39% do total exportado. Subprodutos como cabeças, caudas e bexigas natatórias somam US$ 5,8 milhões (cerca de R$ 30,2 milhões), o que equivale a 36,4%. Outros peixes congelados registram US$ 2,3 milhões (em torno de R$ 12,2 milhões), correspondendo a 14,6%.
Por outro lado, produtos com maior grau de beneficiamento industrial têm participação residual. Filés congelados representam apenas 0,68% do faturamento trimestral, enquanto o filé de pargo responde por 0,62%. Cassandra Lobato reforça que essa estrutura evidencia uma pauta concentrada em itens de baixo valor agregado, mostrando que o Pará ainda exporta peixes em estado próximo ao natural ou com pouca transformação.
Reabertura do Mercado Europeu e Desafios Locais
A missão técnica da União Europeia que avaliou os sistemas de controle nacionais entre 8 e 19 de junho de 2026, visando a retomada das importações suspensas desde 2018, deve trazer poucos efeitos práticos imediatos para o Pará. Eloy de Sousa Araújo, diretor técnico da Associação dos Produtores de Pescados da Amazônia Azul (ABRAPPAA), destacou que as espécies visadas pelo bloco europeu são atum, lagosta e tilápia, e que nenhuma embarcação paraense foi inspecionada pelos auditores.
Leia também: Ceará Lidera Exportação Nacional de Pescado em 2026 com US$ 28,73 Milhões
Fonte: soudejuazeiro.com.br
Um gargalo histórico para o estado é a regularização da frota pesqueira. Estima-se que o Pará possua cerca de 12.000 embarcações, porém apenas 2.007 estão cadastradas oficialmente no Ministério da Pesca e Aquicultura (MPA). Isso deixa quase 10.000 barcos sem registro, inviabilizando a certificação necessária para exportar para a Europa. “Para se exportar para a Europa, a embarcação precisa passar por um processo de certificação. Apenas as 2.007 embarcações registradas podem participar, e nenhuma embarcação paraense buscou essa certificação”, explicou Araújo.
O diretor também atribui essa situação à descontinuidade do MPA desde 2015, quando a transferência sucessiva do órgão entre pastas governamentais provocou perdas nos dados de monitoramento da frota.
Ministério da Pesca Defende Diversificação de Mercados
Em âmbito nacional, o ministro da Pesca e Aquicultura, Edipo Araújo, tem destacado a importância de ampliar os mercados internacionais para o pescado brasileiro. Em entrevista à CNN Brasil no dia 12 de junho, ele afirmou que, apesar da relevância da Europa, diversificar os destinos comerciais é fundamental para reduzir riscos. O ministro mencionou as tarifas impostas pelos Estados Unidos como exemplo das instabilidades enfrentadas: “O tarifaço americano nos prova que o Brasil é um país soberano e não deve ficar refém de país nenhum”, declarou, ressaltando o esforço do governo para abrir novos mercados.
A reportagem buscou contato com o Sindicato dos Pescadores e Pescadoras Artesanais do Estado do Pará e Amapá (Sindpesca-PA/AP) para tratar de exigências fitossanitárias, investimentos em modernização da frota e gargalos portuários, mas não obteve retorno até o fechamento desta edição.
Raio-X da Exportação de Pescado no Pará (1º Trimestre de 2026)
Principais destinos comerciais: Estados Unidos (43,25%), Hong Kong (37,20%) e China (8,57%).
Faturamento somado EUA e China: US$ 8,28 milhões.
Volume embarcado EUA e China: 1.365,8 toneladas.
Produtos exportados: pargo inteiro congelado (39,08%), subprodutos como cabeças e caudas (36,41%), outros peixes congelados (14,67%), filés congelados com alto processamento (0,68%), filé de pargo (0,62%).
Frota pesqueira: aproximadamente 12.000 embarcações, das quais 2.007 estão regularizadas no Ministério da Pesca, restando quase 10.000 sem registro oficial.
Esse cenário evidencia como a concentração de mercado e o baixo beneficiamento afetam diretamente o desempenho econômico do setor pesqueiro do Pará, repercutindo no Produto Interno Bruto (PIB) local e limitando o potencial de crescimento e geração de emprego na região.
