Potência exportadora impulsionada pela mineração
O Pará se firmou como uma das maiores forças exportadoras do Brasil. Em 2025, o estado conquistou a quinta colocação no ranking nacional de exportações, com vendas externas que totalizaram US$ 24,3 bilhões — cerca de R$ 123,5 bilhões — o que representa 7% do total nacional. Esse desempenho robusto é puxado principalmente pelo setor mineral, que coloca o Pará em posição estratégica na balança comercial do país.
No entanto, esse protagonismo esconde um desafio estrutural: a economia paraense ainda depende da exportação de matérias-primas com processamento industrial limitado, o que reduz sua capacidade de gerar empregos, renda e arrecadação compatíveis com o volume exportado.
Desigualdade entre riqueza mineral e desenvolvimento local
Maria Amélia Enriquez, economista e professora titular da Universidade Federal do Pará (UFPA), vinculada ao Programa de Pós-Graduação em Direito e Desenvolvimento da Amazônia (PPGDDA), destaca essa contradição central. Para ela, a dependência da economia brasileira dos bens minerais do Pará é muito maior do que a da própria economia paraense.
Os números reforçam esse cenário: cerca de 85% das exportações do estado são compostas por bens minerais e metais, mas a mineração responde por apenas 15% do Produto Interno Bruto (PIB) do Pará, segundo dados de 2025 da Fundação Amazônia de Amparo a Estudos e Pesquisas (Fapespa). Além disso, a atividade mineral representa menos de 6% da arrecadação do Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) e gera cerca de 30 mil empregos formais diretos, conforme o Cadastro Geral de Empregados e Desempregados do Ministério do Trabalho e Emprego (CAGED/MTE).
Essa concentração dos benefícios econômicos fica restrita a regiões específicas, principalmente nos municípios mineradores da região de Carajás, sem irradiar desenvolvimento para outras áreas do estado, segundo explica a professora Maria Amélia.
Mercado de trabalho e desafios sociais
O mercado de trabalho paraense reflete essa disparidade. O Pará possui cerca de um milhão de empregos formais, o que corresponde a aproximadamente 20% da população em idade ativa. Além disso, 350 mil pessoas atuam como microempreendedores individuais (MEIs), enquanto 4,5 milhões vivem na informalidade e 3,6 milhões são beneficiárias do Bolsa Família, segundo dados do Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome (MDS).
Esse contexto reforça a necessidade de ampliar atividades econômicas capazes de distribuir melhor a riqueza gerada no estado, promovendo inclusão social e aumento da renda.
Crescimento do agronegócio e serviços
Apesar de a mineração ser o carro-chefe das exportações, outros setores vêm ganhando relevância na economia paraense. Entre 2012 e 2024, o agronegócio foi o segmento que mais cresceu, seguido pelo setor de serviços. A participação do agro nas exportações estaduais, praticamente inexistente no início da década, alcançou cerca de 10%, impulsionada pelo avanço da soja, do milho e da pecuária. Atualmente, o agronegócio gera aproximadamente 58 mil empregos formais diretos.
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A indústria de alimentos também se destaca, empregando cerca de 50 mil trabalhadores, enquanto o setor de serviços permanece como o maior gerador de empregos formais, com aproximadamente 430 mil postos de trabalho.
A importância da agregação de valor
Segundo Maria Amélia Enriquez, o crescimento desses setores depende da capacidade de agregar valor à produção local. “A boa teoria econômica não tem outra fórmula senão agregar valor aos produtos, adensar a cadeia produtiva, bem como a rede de fornecedores, para criar mais empregos e melhor qualificados”, afirma a economista.
Essa lógica também é válida para a economia das comunidades tradicionais, que conta com cerca de 350 mil beneficiários do Bolsa Família envolvidos em atividades como agricultura, criação de animais, coleta e pesca. Para que esse potencial se traduza em maior renda, é fundamental investir em tecnologia, capacitação e acesso a mercados.
Verticalização industrial como caminho para o desenvolvimento
A indústria paraense tem na verticalização mineral-metalúrgica uma estratégia prioritária. Entre 2022 e 2025, a Compensação Financeira pela Exploração de Recursos Minerais (CFEM) destinou cerca de R$ 11,8 bilhões aos estados e municípios produtores. No entanto, para Alex Carvalho, presidente da Federação das Indústrias do Estado do Pará (Fiepa), o verdadeiro potencial econômico está na capacidade de industrializar localmente os recursos minerais antes da exportação.
“A mineração continuará sendo um dos pilares da economia paraense. Mas o grande desafio é transformar aqui aquilo que hoje é exportado em estado bruto”, destaca Carvalho. Ele ressalta que cada etapa adicional de beneficiamento gera mais valor, demanda tecnologia, cria empregos qualificados, fortalece fornecedores locais e amplia a arrecadação.
Essa visão fundamenta o Mapa Estratégico da Indústria do Pará 2026-2032, elaborado pela Fiepa em parceria com a Confederação Nacional da Indústria (CNI). O documento prioriza a verticalização mineral-metalúrgica, aproveitando a liderança do estado na produção mineral, a disponibilidade energética e a localização geográfica para ampliar a transformação industrial.
Bioeconomia e diversificação econômica
Além da indústria mineral, a diversificação da economia paraense passa pelo fortalecimento da bioeconomia e da transição energética. O Plano Estadual de Bioeconomia (PlanBio) busca transformar a biodiversidade amazônica em produtos de maior valor agregado, como o açaí, a castanha e bioativos para as cadeias de alimentos, cosméticos e fármacos.
O Pará também investe em segmentos como hidrogênio sustentável, biomassa, biometano, agroindústria de baixo carbono, manufatura florestal certificada e economia circular. “O objetivo é que o Pará deixe de exportar apenas recursos naturais e passe a exportar inteligência, tecnologia e produtos com maior valor agregado”, afirma Alex Carvalho.
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A realização da 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP 30), em novembro de 2025, impulsionou iniciativas como o Parque de Bioeconomia no Porto Futuro II e projetos que utilizam resíduos agrícolas, como o caroço de açaí para substituir carvão mineral na produção de cimento.
Desafios estruturais limitam competitividade
Apesar das oportunidades, o Pará enfrenta entraves históricos que impactam sua competitividade. No Ranking de Competitividade dos Estados, elaborado pelo Centro de Liderança Pública (CLP), o estado ocupa a 25ª posição entre as 27 unidades da federação. Os principais desafios estão em infraestrutura, educação, sustentabilidade social, eficiência da administração pública e segurança jurídica para investimentos.
Para Alex Carvalho, reduzir o chamado “Custo Amazônia” é fundamental para ampliar a industrialização e atrair investimentos. “Infraestrutura reduz o custo e segurança jurídica diminui riscos, determinando se um investidor instalará uma indústria no Pará ou continuará apenas exportando matéria-prima”, afirma o presidente da Fiepa.
Entre as propostas do setor industrial estão a redução do custo da energia, ampliação do financiamento de longo prazo, fortalecimento do FNO Inovação, simplificação do licenciamento ambiental e implantação da Zona de Processamento de Exportação (ZPE) de Barcarena.
Planejamento estratégico para o futuro
O Mapa Estratégico da Indústria do Pará 2026-2032 reúne 620 iniciativas para impulsionar o desenvolvimento econômico, com foco em infraestrutura logística, energia e transição energética, bioeconomia, inovação, capital humano e verticalização mineral-metalúrgica.
Projetos como o derrocamento do Pedral do Lourenço, expansão da Ferrovia Norte-Sul até Barcarena, modernização dos portos do Arco Norte e implantação do Balcão Único Digital para facilitar o comércio exterior são prioridades.
Alex Carvalho ressalta que o desafio não é substituir a mineração, mas transformar as vantagens naturais do Pará em competitivas, fazendo do estado um polo que produz riquezas e também industrializa, inova e promove desenvolvimento sustentável.
