Pagamento digital nos ônibus: experiência do Rio reacende debate em Belém
Desde o último sábado (28/06), os ônibus municipais do Rio de Janeiro deixaram de aceitar pagamento em dinheiro em espécie. A mudança tem como meta aumentar a segurança e acelerar o embarque dos passageiros, mas reacendeu uma discussão importante sobre a adoção de meios de pagamento digitais no transporte público. Em Belém, a possibilidade de seguir o mesmo caminho divide usuários, que reconhecem as vantagens da modernização, mas também apontam os desafios para quem ainda depende do dinheiro físico.
Sistemas digitais em Belém: VAI Passe Fácil e BRT Metropolitano
Na Região Metropolitana de Belém, os usuários contam com o aplicativo “VAI Passe Fácil” para o pagamento das passagens dos ônibus de linha, além do BRT Belém. O sistema permite o pagamento via celular por QR Code, com recargas feitas exclusivamente por Pix. Apesar disso, os cartões físicos tradicionais seguem funcionando normalmente, sendo compatíveis com toda a frota de ônibus. Atualmente, a tarifa cobrada pelo aplicativo é integral, sem direito à meia-passagem.
Já no sistema do BRT Metropolitano, a tarifa é paga exclusivamente pelo cartão “Pra Já” ou pelo aplicativo, ambos gerenciados pela Autopass. O sistema integra sete municípios da Região Metropolitana — Belém, Ananindeua, Marituba, Benevides, Santa Bárbara do Pará, Santa Izabel do Pará e Castanhal. Além do cartão físico, passageiros podem pagar com Bilhete QR Code, válido para um único embarque, e recarregar créditos via Pix diretamente na plataforma digital.
O sistema do BRT assegura benefícios como meia-passagem para estudantes cadastrados, gratuidade para idosos a partir de 60 anos e pessoas com deficiência (PcDs), além de isenção para crianças menores de 7 anos. Como o cadastro exige biometria facial, a emissão da primeira via do cartão físico precisa ser feita presencialmente em postos de atendimento da Região Metropolitana.
Opiniões divididas sobre a modernização do transporte em Belém
A aposentada Elza Silva vê a redução do uso do dinheiro em espécie como uma mudança natural no comportamento dos passageiros. Para ela, o modelo adotado no Rio poderia ser implementado também em Belém. “Eu acho bom porque nem todo mundo hoje em dia tem dinheiro. Hoje está difícil a pessoa andar com dinheiro em espécie”, afirma. Usuária do cartão Sênior, destinado a idosos, Elza não acredita que a digitalização mudaria sua rotina. “Se tiver uma medida dessa, eu concordo. Eu pago a passagem com meu cartão Sênior, da terceira idade.”
Por outro lado, ela destaca que a digitalização ainda não alcança todos os usuários. “Tem muita gente que não usa Pix no ônibus. Minha irmã, por exemplo, não usa e tem dificuldade. Tem coisas que eu também não uso, quem faz é minha neta. Essa questão existe”, pondera.
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Desafios para a adaptação e infraestrutura
Para o autônomo José Júnior, Belém ainda não está pronta para eliminar o pagamento em dinheiro. Ele ressalta que grande parte da população ainda depende do dinheiro físico e não está preparada para usar exclusivamente meios digitais. “No momento, não vale a pena tirar o pagamento em dinheiro nos ônibus de Belém. Mesmo sendo paraense, acredito que não estamos preparados para trabalhar só com vale-transporte digital ou outra forma”, explica.
José destaca que a desconfiança em relação às ferramentas digitais ainda é grande entre os passageiros. “Muita gente ainda prefere pagar a passagem em dinheiro porque não acredita no Pix ou no vale digital.” Ele também aponta que a prioridade deveria ser melhorar a infraestrutura do transporte público. “Precisamos de melhorias maiores do que discutir formas de pagamento. Muitas vezes nem paradas temos, as pessoas ficam no meio da rua.”
Outro problema citado é a falta de integração entre os sistemas de bilhetagem da Região Metropolitana: “No Rio e em outros lugares já pagam até com QR Code, mas aqui eu tenho um passe para Marituba e outro para Belém. Não pode usar o passe de uma cidade no ônibus da outra. E aí?”
Medo de falhas e impacto no mercado de trabalho
O vendedor em ônibus Luiz Carlos também é contra o fim do dinheiro em espécie. Ele acredita que depender somente de meios eletrônicos pode causar transtornos quando o sistema falha. “Já vi a catraca falhar com outras formas de pagamento e as pessoas ficam sem saber o que fazer”, relata.
Luiz reforça que o dinheiro em espécie é uma alternativa importante em emergências. “Se não tiver dinheiro, como vai ser? O motorista não vai deixar passar.” Ele também manifesta preocupação sobre a extinção de cargos, como o de cobradores, com a digitalização. “Esse é mais um emprego que vai desaparecer.”
Embora reconheça que o Pix facilitou a vida de muita gente, Luiz defende a permanência do dinheiro em espécie como opção. “Eu não uso Pix, mas para quem usa facilitou muito. Porém, se a internet falhar ou estiver ruim, como fica? Tem que ter o ‘dim dim’.”
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Debate sobre pagamentos digitais deve avançar em Belém
A experiência do Rio de Janeiro reafirma a tendência de expansão dos pagamentos digitais no transporte público brasileiro. Em Belém, as opiniões dos passageiros evidenciam que a discussão vai além da tecnologia e envolve questões como inclusão digital, infraestrutura, integração entre os sistemas e manutenção de alternativas para quem ainda depende do dinheiro em espécie.
Até o fechamento desta reportagem, o Sindicato das Empresas de Transporte de Passageiros de Belém (Setransbel) não havia se manifestado sobre estudos ou previsão para adotar um modelo semelhante ao do Rio.
Como usar os sistemas digitais de bilhetagem na Grande Belém
VAI Passe Fácil
Para utilizar o “VAI Passe Fácil”, baixe o aplicativo na loja do seu celular (Android ou iOS), acesse a Carteira Digital, escolha “Recarregar Carteira” e realize o pagamento via Pix. Com saldo disponível, gere o QR Code no app e aproxime a tela do celular do leitor na catraca para liberar a passagem.
Pra Já
Existem duas formas de usar o “Pra Já”:
Pelo aplicativo: baixe o app, insira créditos via Pix na carteira digital, gere o “Bilhete QR Code” antes de embarcar e aproxime o celular do leitor da catraca para liberar o acesso. O QR Code é dinâmico e válido para um único embarque imediato.
Pelo cartão físico: faça a primeira via presencialmente em um posto, cadastrando biometria facial. Recarregue créditos via Pix no app ou com dinheiro/cartão nas bilheterias dos terminais de Ananindeua e Marituba. Na hora do embarque, aproxime o cartão do validador e confirme a identidade na câmera de biometria facial para liberar a passagem.
