Rastreabilidade individual avança com apoio dos frigoríficos
A identificação individual de bovinos no Pará apresenta um salto significativo: de apenas 0,2% do rebanho em 2025 para uma estimativa de 30,2% até 2030, o que equivale a aproximadamente 7,5 milhões de animais. Esse avanço depende diretamente do engajamento dos frigoríficos aptos no estado, que devem levar a rastreabilidade aos seus fornecedores por meio de incentivos financeiros e assistência técnica em campo.
O cenário foi apresentado durante o lançamento do relatório do Instituto de Manejo e Certificação Florestal e Agrícola (Imaflora), que detalha estratégias de rastreabilidade individual e requalificação comercial para a cadeia bovina no Brasil, baseadas em dois projetos-piloto realizados no Pará.
Experiência prática reforça viabilidade da proposta
O Pará foi selecionado para sediar os projetos-piloto devido às condições institucionais e territoriais favoráveis, além de concentrar o segundo maior rebanho bovino do país. O estado também enfrenta desafios comuns na Amazônia, como a coexistência de propriedades rurais, assentamentos, Terras Indígenas e Unidades de Conservação, que apresentam diferentes formas de uso da terra.
No âmbito da rastreabilidade individual, o projeto-piloto da Amigos da Terra – Amazônia Brasileira (AdT) apoiou 59 fornecedores de frigoríficos para identificar cerca de 26 mil cabeças de gado. “A experiência demonstra que é possível ampliar as ações e fortalecer a sustentabilidade da pecuária”, afirmou Natália Grossi, coordenadora do Programa de Cadeias Agropecuárias da AdT.
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Para os frigoríficos, a estratégia envolve equipes que já mantêm contato com os pecuaristas e a presença de técnicos no campo para acompanhar o processo de brincagem. O estudo estima um investimento aproximado de R$ 1,7 milhão por um frigorífico de médio porte em 12 meses para atender até 120 produtores, sendo 86% desse valor destinado a incentivos, como kits de identificação para os criadores que aderirem.
Combinação de medidas para ampliar a rastreabilidade
O projeto-piloto faz parte do Programa pecuária sustentável do Pará, fruto da parceria entre Imaflora e AdT, financiado pelo Bezos Earth Fund e pela União Europeia. A expansão da identificação individual dos bovinos depende de uma série de medidas integradas, incluindo incentivos econômicos, financiamento compartilhado, assistência técnica contínua, suporte documental e acompanhamento direto nas propriedades.
Bruno Vello, coordenador de políticas públicas do Imaflora, destaca que a política de identificação animal deve avançar respeitando a regularização ambiental, a inclusão produtiva e a permanência dos pequenos produtores no mercado formal.
Passivo ambiental e resistência à requalificação comercial
A ampliação da rastreabilidade também esbarra em dificuldades enfrentadas por produtores que possuem passivos ambientais, o que limita sua atuação no mercado formal. Um levantamento realizado pela Fundação Solidaridad no assentamento Tuerê, em Novo Repartimento (PA), mostrou que 73 dos 96 produtores visitados rejeitaram inicialmente a proposta de requalificação comercial, enquanto 17 ficaram indecisos e apenas seis aderiram.
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Após a oferta do Bônus Desbloqueia Já e o atendimento presencial do Núcleo de Atendimento ao Produtor (NAP), outras sete famílias aceitaram participar. A resistência está ligada principalmente ao tamanho do passivo ambiental, que correspondia em média a 29,2 hectares, cerca de 44% da área média das propriedades. Para esses produtores, destinar quase metade do terreno à recomposição da vegetação representa perda imediata de área produtiva e, consequentemente, de renda.
Ajustes e incentivos para facilitar a transição
Paulo Lima, gerente de programas da Fundação Solidaridad, ressalta que o modelo tradicional de requalificação encontra limites diante dessas realidades e que é necessário adequar as exigências para a Amazônia, oferecendo alternativas produtivas para a transição. Incentivos financeiros e estratégias para elevar a produtividade nas áreas já abertas podem tornar o processo mais viável.
Além disso, a combinação do bônus com assistência técnica focada na intensificação sustentável da pecuária e na implantação de sistemas agroflorestais com cacau ajuda a reduzir a percepção de risco entre os produtores. Uma análise de escalabilidade apontou os municípios de São Félix do Xingu, Marabá e Novo Repartimento como áreas prioritárias para expandir a requalificação comercial.
