Desigualdade de Gênero no Mercado de Trabalho
As mulheres representam a força de trabalho mais escolarizada no mercado formal do Pará, mas ainda lidam com barreiras estruturais que limitam seu acesso a posições de destaque nas áreas tecnológicas. Este é o resultado do estudo “Paradoxo da Qualificação: Uma Análise da Inserção Feminina na Economia do Pará (2008-2024)”, realizado pelo Observatório da Indústria do Estado do Pará, vinculado à Federação das Indústrias do Estado do Pará (FIEPA). Para reverter esse cenário, especialistas defendem a urgência de investimentos voltados para a formação científica de mulheres.
Os dados revelam uma clara contradição: 59,2% das mulheres que atuam no mercado formal paraense possuem ensino superior completo, em contrapartida a 40,8% dos homens. A desigualdade começa a se manifestar nas escolhas acadêmicas, perpetuando a ideia de que a tecnologia é um campo predominantemente masculino. Por exemplo, nas graduações em “Ciência da Computação”, os homens ocupam 88,3% das vagas disponíveis. Isso acaba refletindo no mercado de trabalho, onde existe o que é conhecido como “teto de vidro”. As mulheres predominam em cargos operacionais especializados (62,9%), mas perdem espaço em funções de liderança e gerência, onde representam apenas 43,6%.
Incentivos e Iniciativas Educacionais
Frente a esse diagnóstico, o estudo aponta a necessidade de políticas ativas que incentivem a participação das mulheres nas áreas de STEM (Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática). No Pará, diversas iniciativas educacionais vêm sendo implementadas para desafiar essa lógica. No Serviço Social da Indústria (SESI), o ensino de robótica e iniciação científica é utilizado como ferramenta para aumentar a presença feminina nesse setor. Um exemplo notável é a escuderia “Mirakitan”, formada exclusivamente por alunas do ensino médio, que desenvolvem protótipos autônomos para competir em pistas de corrida, simulando desafios típicos da Fórmula 1 na modalidade STEM Racing.
O impacto dessas iniciativas é evidente, com diversas estudantes paraenses conquistando espaço em fóruns internacionais. Paula Araújo, de 16 anos e aluna da Escola SESI Belém, integrou a delegação brasileira na Harvard Model United Nations (HMUN). Durante o evento, realizado pela Universidade de Harvard, atuou como diplomata em debates sobre desafios globais.
Avanços na Indústria e Pesquisa
Esse avanço também se reflete na pesquisa aplicada à indústria pesada. No Instituto SENAI de Inovação em Tecnologias Minerais (ISI-TM), as mulheres constituem 58% dos pesquisadores. Elas trabalham no desenvolvimento de soluções tecnológicas para o setor de mineração, que, apesar de sua relevância econômica, historicamente tem sido dominado por homens. A doutora em Geoquímica, Patrícia Magalhães, especialista em mineralogia aplicada, é um exemplo dessa nova geração que desafia as normas. “Embora eu me sinta desafiada constantemente, também estou muito orgulhosa da minha trajetória. Fazer ciência no Brasil, especialmente na área mineral, que é bastante técnica, envolve muitos obstáculos, mas é extremamente gratificante”, comenta.
No entanto, a resistência cultural ainda permanece nas chamadas áreas exatas. Darilena Porfírio, que atua nos setores químico, elétrico e mineral, observa que a presença feminina nesses campos frequentemente gera desconfiança. “Ainda hoje, nós, mulheres, somos questionadas sobre nossas competências profissionais com muito mais frequência que nossos colegas homens. Muitas vezes, somos cobradas por como vamos equilibrar carreira, maternidade e as demandas familiares”, revela.
Desafiando Estereótipos e Inspirando Futuras Gerações
Vinda de uma família de costureiras e doceiras, Darilena enfrentou desafios ao escolher uma carreira técnica, mas conseguiu conquistar seu espaço. “Conquistei minha autonomia profissional e financeira. Meus filhos cresceram me vendo trabalhar de uniforme, bota e capacete, e eles se orgulham disso. Espero inspirar novas gerações e mostrar que as mulheres podem ocupar qualquer espaço que desejarem”, afirma com veemência.
A experiência internacional também é um diferencial na carreira dessas profissionais. Paula de Freitas, que atuou em processos em uma refinaria de alumina na Austrália por quatro anos, destaca os benefícios dessa vivência. “O contato com outras culturas e com pessoas de diferentes nacionalidades não só enriquece pessoalmente, fortalecendo valores como a tolerância, mas também traz novas perspectivas para resolver problemas técnicos”, conclui.
