O Paradoxo do Monitoramento do Sono
Um fenômeno intrigante tem sido observado entre os usuários de relógios inteligentes: o mesmo dispositivo que deveria favorecer um descanso reparador pode estar, na verdade, contribuindo para a insônia. Esse fenômeno recebe o nome de ortosônia, uma obsessão por um sono ideal, estimulada pelos dados fornecidos pelos rastreadores. Esse comportamento, paradoxalmente, compromete a qualidade do sono que os usuários tentam proteger.
O Que É Ortosônia?
O termo “ortosônia” foi introduzido em 2017 pela psicóloga Kelly Baron e sua equipe no Rush University Medical Center, em Chicago. Eles notaram que muitos de seus pacientes apresentavam queixas sobre a qualidade do sono não baseadas em suas sensações ao acordar, mas nas informações capturadas por seus dispositivos. A palavra é uma combinação de “ortho” (correto, perfeito) e “somnia” (sono), fazendo uma analogia com a ortorexia, que é a obsessão por uma alimentação saudável.
O estudo pioneiro foi publicado no Journal of Clinical Sleep Medicine, onde foram descritos três casos em que pacientes investiam um tempo excessivo em busca de melhorar as métricas do seu rastreador. Essa busca, no entanto, acabava piorando a insônia. Embora a ortosônia ainda não conste como um diagnóstico formal nas diretrizes clínicas, está documentada em literatura científica e é levada a sério por especialistas da área de medicina do sono.
Os Efeitos Psicológicos dos Relógios Inteligentes
É importante destacar que os relógios inteligentes não prejudicam o sono de forma direta. O impacto negativo ocorre a partir da ansiedade gerada pela interpretação dos dados. Quando um usuário acorda e confere a pontuação do sono antes de avaliar seu próprio bem-estar, ele acaba transferindo a autoridade sobre a percepção de descanso para um algoritmo. Isso cria um estado de hipervigilância que pode dificultar o adormecimento.
Essa preocupação em atingir metas de sono, como uma quantidade ideal de horas de sono profundo ou REM, faz com que o usuário comece a monitorar mentalmente sua qualidade de sono, mesmo enquanto ainda está acordado. Essa ativação cognitiva é exatamente o oposto do que se busca: um descanso reparador se transforma em um desempenho avaliado.
Quem São os Atingidos por Essa Realidade?
Um estudo transversal publicado em 2024 na revista Brain Sciences analisou 523 participantes e revelou que aproximadamente 35% deles utilizavam regularmente dispositivos de rastreamento do sono. Entre esses usuários, a prevalência de ortosônia variava de 2% a 14%, dependendo dos critérios utilizados para o diagnóstico. Aqueles que apresentavam esse padrão de comportamento relataram escores de insônia significativamente mais altos do que os demais usuários.
Particularmente preocupante é o fato de que jovens entre 18 e 35 anos relataram sentir ansiedade relacionada ao uso de rastreadores em uma frequência quase dez vezes maior do que pessoas com 66 anos ou mais. Um dado alarmante é que 18% dos usuários de aplicativos dedicados ao sono afirmaram que o monitoramento acabou os deixando mais preocupados com a qualidade do descanso.
Precisão dos Dispositivos de Monitoramento do Sono
A ortosônia é ainda mais complexa devido à precisão dos dispositivos de monitoramento. Embora esses dispositivos sejam considerados razoavelmente eficazes para distinguir entre estados de sono e vigília, apresentando uma precisão entre 79% e 88% em comparação com a polissonografia, a acurácia para identificar fases específicas do sono é muito mais baixa, chegando a apenas 38%. Isso pode levar a equívocos onde o usuário recebe uma pontuação baixa para o sono profundo mesmo quando, fisiologicamente, teve uma boa noite de descanso.
Curiosamente, os pesquisadores que estudaram a ortosônia notaram que muitos pacientes davam mais atenção aos dados dos rastreadores do que aos resultados de exames clínicos, desconsiderando a interpretação de especialistas.
Sinais de Alerta sobre o Monitoramento Excessivo
Embora o uso de rastreadores de sono não seja necessariamente problemático, ele se torna um alerta quando os dados se tornam mais relevantes do que a própria percepção de bem-estar. Alguns sinais que indicam que o monitoramento pode estar saindo do controle incluem:
- Checar a pontuação do sono como primeira ação do dia, antes mesmo de avaliar a própria sensação de descanso;
- Alterar horários de dormir e acordar com base exclusivamente nas métricas do dispositivo;
- Sentir ansiedade ao perceber que o carregador do relógio não permitirá seu uso à noite;
- Permanecer mais tempo na cama tentando melhorar as métricas, mesmo sem sono;
- Discutir com médicos ou especialistas referindo-se aos dados do rastreador como evidência mais confiável do que avaliações clínicas.
Usando Rastreadores de Sono de Forma Consciente
A tecnologia pode ser uma aliada se utilizada como ferramenta de monitoramento de tendências, em vez de um critério de julgamento diário. Analisar padrões ao longo de semanas, por exemplo, perceber uma redução nas horas de descanso associada a períodos de estresse, é uma abordagem eficaz. No entanto, encarar cada avaliação noturna como um veredicto sobre a saúde pode tornar o monitoramento um fator prejudicial para o usuário.
