Memórias que Resistêm na Amazônia
A Amazônia é um território tecido por memórias profundas e, ao mesmo tempo, por apagamentos históricos. É nessa interface que o artista plástico rondoniense Rafael Prado mergulha em sua nova exposição “Povos Amazônicos Não Morrem, Viram Semente”, que será inaugurada nesta sexta-feira (10) no Centro Cultural Banco da Amazônia, no coração de Belém. A mostra integra as celebrações dos 84 anos do Banco e reúne obras que trazem à tona personagens amazônicos que dedicaram suas vidas à defesa da floresta e de seus modos de existir.
Com curadoria de Shannon Botelho – pesquisador, crítico de arte e professor do Departamento de Artes Visuais do Colégio Pedro II –, e produção executiva de Natalia Azevedo, da Abstrata Produções, a exposição parte da ideia de que na floresta nada desaparece por completo. “O trabalho do Rafael nos lembra que aqueles que defenderam a Amazônia seguem presentes em suas histórias, em seus territórios e na memória coletiva. Suas pinturas transformam essas presenças em imagens de força, continuidade e esperança”, ressalta o curador.
Origens Pessoais e Históricas
Em entrevista exclusiva, Rafael Prado conta que a exposição nasceu de uma série iniciada em 2022, fruto de um resgate íntimo de memórias da infância. A estrada de ferro Madeira-Mamoré, uma obra do início do século XX, marcou sua trajetória. “Quando criança, por volta dos cinco anos, lembro da reforma dessa ferrovia que saía do porto de Porto Velho até a capela de Santo Antônio, concluída em 1912. Na década de 90, ao visitar o local, percebi que as majestosas árvores centenárias que eu lembrava ao redor da capela já não existiam mais”, relata o artista.
Essa lembrança despertou uma pesquisa profunda sobre a ocupação da região e o impacto sobre a floresta. “Pensei muito sobre as árvores que foram cortadas para essa construção e o que isso significou para o território. A exposição nasce dessa luta centenária de proteção e da relação das pessoas com a floresta”, explica Rafael.
Resistência e Renascimento
Para o artista, muitos defensores da Amazônia foram silenciados ou assassinados, mas sua obra busca simbolizar o renascimento dessas figuras. Eles são representados como sementes e árvores protetoras, alimentando as gerações atuais com os frutos de sua luta. “É uma metáfora para mostrar que essas pessoas ainda estão vivas na memória e na resistência da floresta”, destaca Rafael Prado.
Ele também ressalta que a Amazônia, apesar de estar no centro geográfico do mundo, é tratada como periferia no Brasil. “Os debates sobre o bioma muitas vezes ignoram o que acontece aqui, com as pessoas que vivem e defendem o território. Minha pesquisa é uma tentativa de contar essa história enraizada, que muitas vezes não é contada”, afirma.
Oficina e Participação do Público
Como parte da programação da exposição, Rafael Prado realizará no domingo (12) a oficina “Coletando Memórias: Workshop de Frotagem e Colagem Artística” no Centro Cultural Banco da Amazônia. A atividade, gratuita, ensinará a técnica de frotagem, que captura texturas e relevos das superfícies por meio da fricção do papel com grafite ou giz de cera.
As inscrições podem ser feitas pelo e-mail [email protected], com cópia para [email protected]. Essa é uma oportunidade para o público se conectar de forma prática e sensível com as memórias e histórias que permeiam a floresta e seus povos.
Serviço da Exposição
Exposição: Povos Amazônicos Não Morrem, Viram Semente
Local: Centro Cultural Banco da Amazônia, Av. Presidente Vargas, 725-761, Campina, Belém-PA
Abertura: 10 de julho de 2026
Horários: Terça a sexta, das 10h às 16h; sábado, domingo e feriados, das 10h às 14h
