Um Marco na conservação da Arara-Vermelha
No mês de abril, o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) celebrou um feito inédito: o nascimento de filhotes de arara-vermelha-grande (Ara chloropterus) na Mata Atlântica, um evento que marca a volta dessa espécie ao bioma após quase duzentos anos de sua extinção. Essa importante conquista é fruto do projeto de Reintrodução da Arara-vermelha-grande na Mata Atlântica, que teve início em 2022 e é coordenado pelo Centro de Triagem de Animais Silvestres (Cetas) do Ibama, localizado em Porto Seguro, no sul da Bahia.
O nascimento dos filhotes representa a primeira reintrodução documentada da arara-vermelha-grande na história da Mata Atlântica, sendo um feito significativo para a conservação dessa rica região. Originalmente, essa espécie ocupava vastas áreas do Brasil, exceto algumas regiões do Nordeste e do Sul. A presença da arara-vermelha foi registrada na Mata Atlântica desde o início da colonização, na Carta de Pero Vaz de Caminha, que a descreveu como “papagaios vermelhos, muito grandes e formosos”. Viajantes, como o príncipe Maximiliano de Wied-Neuwied, também relataram avistamentos dessa espécie entre o Rio Mucuri e Salvador.
Desafios e Ações para a Reintrodução
A arara-vermelha-grande enfrentou uma drástica redução de sua população devido ao desmatamento e à captura ilegal, levando à extinção dessa espécie em todo o litoral brasileiro. Atualmente, as populações selvagens estão restritas ao interior do país, principalmente nas regiões Centro-Oeste e Norte. O projeto do Ibama visa reverter essa situação, incentivando o retorno da espécie ao litoral.
Para isso, os indivíduos envolvidos na reintrodução são provenientes de cativeiro, através de doações ou apreensões em ações contra o tráfico de animais silvestres. Ao chegarem ao Cetas Porto Seguro, as aves passam por um rigoroso processo de identificação, incluindo microchips e anilhas metálicas, além de uma avaliação clínica e comportamental. Depois disso, elas são alocadas em viveiros de voo, onde recebem treinamento para se adaptarem ao ambiente natural e são alimentadas com frutos nativos.
Um Ambiente Favorável para a Soltura
A soltura do primeiro grupo de araras ocorreu em um fragmento de Mata Atlântica com cerca de 7 mil hectares, em estágio avançado de regeneração. Localizada na Estação Veracel, a maior Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN) do Nordeste, em Porto Seguro, a área foi equipada com comedouros e caixas-ninho artificiais para ajudar na adaptação das aves.
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O primeiro lote de araras foi solto em 2024 e, embora especialistas acreditem que a reprodução possa levar até cinco anos, já no primeiro ano após a soltura algumas caixas-ninho foram ocupadas. Em 2026, casais começaram a defender esses ninhos, um indicativo claro de comportamento reprodutivo.
Resultados Promissores na Reintrodução
A analista ambiental do Ibama e coordenadora do projeto, Ligia Ilg, comentou sobre o monitoramento das aves, que revelaram um casal passando longos períodos em uma das caixas-ninho. Para não interferir no processo natural, a equipe optou por um acompanhamento à distância. Eventualmente, a presença de dois filhotes foi confirmada, com avistamentos dos pequenos voando e sendo alimentados pelos pais, demonstrando uma adaptação positiva ao novo ambiente.
Esse projeto também desafia a percepção de que aves de cativeiro não conseguem retornar à vida selvagem. Ligia Ilg ressaltou que casos anteriores já haviam mostrado a possibilidade de reprodução de espécies, como os papagaios-do-mangue e periquitos-rei, mesmo após serem criados em cativeiro. Através de treinamento e interação com outros indivíduos da mesma espécie, é possível recuperar comportamentos naturais.
A Importância Ecológica da Arara-Vermelha
A arara-vermelha-grande desempenha um papel ecológico essencial, alimentando-se de frutos e sementes e contribuindo para sua dispersão. Graças ao seu porte, essa espécie é capaz de transportar sementes a longas distâncias, favorecendo a regeneração florestal e atuando como uma verdadeira “engenheira de ecossistemas”, impactando positivamente a biodiversidade e a dinâmica ambiental.
O projeto é apoiado por diversas instituições, incluindo a Polícia Militar da Bahia, que garante a proteção da área de soltura; o Laboratório de Etologia Aplicada da Universidade Estadual de Santa Cruz (UESC), que oferece orientação no treinamento das aves; a Conservix, responsável pela construção de ninhos artificiais; e a RPPN Estação Veracel, que promove ações de educação ambiental. Além disso, o apoio da organização internacional World Parrot Trust foi fundamental para a construção dos viveiros de voo, destacando a colaboração entre diferentes setores em prol da conservação ambiental.
