Preservando a Memória Histórica
No último dia 26, a Secretaria de Estado de Igualdade Racial e Direitos Humanos do Pará (Seirdh) promoveu uma roda de conversa chamada “Lugares de Memória à luz do Golpe Militar de 1964 em Belém do Pará”. O evento aconteceu no Espaço São José Liberto e teve como finalidade reafirmar e preservar a memória sobre as violações de direitos humanos que ocorreram em Belém durante o regime militar. O encontro contou com a presença de representantes do Ministério dos Direitos Humanos e Cidadania (MDHC), de movimentos sociais, pesquisadores e ex-presos políticos.
O secretário da Seirdh, Miriquinho Batista, destacou a relevância do momento como um espaço de escuta e valorização das histórias de resistência. “Agradeço a presença de todos. Cada um aqui traz memórias e relatos de momentos difíceis. Lembro-me de quando era estudante e morava em uma casa estudantil, onde fui expulso por não pertencer ao espaço. Retornamos depois, como forma de resistência. Essa é apenas uma das muitas histórias que ouvimos. O propósito da roda de conversa é justamente resgatar a história que marcou nossa sociedade. Para a secretaria, é fundamental discutir esses temas”, afirmou Batista.
Valorização das Histórias de Luta
A ouvidora da Seirdh e ex-presidente da Sociedade Paraense de Defesa dos Direitos Humanos (SDDH), Vera Tavares, enfatizou a importância da preservação da memória ao longo dos três anos de criação da secretaria. “Nosso trabalho inclui ações voltadas para a memória, justiça e reparação. Promovemos eventos em homenagem ao Golpe Militar de 1964. Observamos um distanciamento entre gerações, o que pode levar ao esquecimento. Hoje, reconhecemos essa luta e valorizamos aqueles que lutaram pela democracia e pela anistia. Muitas histórias são apagadas e é papel da secretaria preservar a trajetória de luta do povo, especialmente do povo paraense”, comentou Tavares.
Ela também explicou a escolha do Espaço São José Liberto como local do evento. “Dentro dessa perspectiva, nos alinhamos ao programa federal ‘Lugares de Memória’, que identifica e sinaliza espaços onde ocorreram violações de direitos humanos. Esse é um desses lugares”, ressaltou.
Relatos de Testemunhas da Ditadura
A programação do evento incluiu relatos de pessoas que vivenciaram a Ditadura Militar. Um dos destaques foi João Moacir Mendonça, de 83 anos, que foi preso político em uma cela localizada no próprio Espaço São José, que já funcionou como Presídio São José. Emocionado, Mendonça compartilhou a importância de manter a memória histórica viva. “Falar sobre isso sempre me emociona porque vivi momentos difíceis. Preservar essa memória é fundamental. Estamos recuperando nossas histórias, e isso deve ser realizado. Isso é história, isso é Brasil. Eu cursava Direito, mas não consegui concluir por ser perseguido e torturado. Fui trazido a este local. Depois, consegui me formar em Administração e atuar como analista de sistemas. Essa história precisa ser lembrada sempre”, desabafou.
Compreendendo o Passado
A coordenadora-geral de Políticas de Memória e Verdade do MDHC, Paula Franco, presente no evento, comentou sobre a importância de compreender as diversas realidades do período ditatorial no Brasil. “Sair de Brasília e entender como a ditadura funcionou em cada local é essencial, assim como conhecer as demandas específicas de memória de cada território. O Brasil possui dimensões continentais, o que nos impõe o desafio de estarmos presentes nos territórios, ouvindo e compreendendo essas demandas. A ditadura teve impactos diversos em cada região e estar em Belém hoje é crucial para construirmos uma memória mais ampla e que permita que a população se reconheça nela, sem se restringir ao eixo Rio-São Paulo”, explicou Paula.
Exposição Histórica
Além da roda de conversa, os participantes puderam conferir a exposição “Charges do Resistência”, que apresenta caricaturas do Jornal Resistência. A mostra, que integra o Programa Cidadania, Memória, Justiça e Direitos Humanos, tem como objetivo retratar a história da ditadura militar na Amazônia através das charges publicadas no periódico alternativo criado pela SDDH em oposição ao regime. A exposição reúne 28 charges históricas, cuidadosamente selecionadas e organizadas em colaboração entre a Seirdh, a professora Anna Júlia Lustosa e os jornalistas Paulo Roberto Ferreira e Walter Pinto, enriquecendo a reflexão sobre este período sombrio da história brasileira.
