Os Desafios para Mulheres na Ciência
São Paulo – Passados seis anos desde o início da pandemia, a microbiologista e divulgadora científica Natália Pasternak tem se dedicado a explicar o método científico, especialmente na busca por vacinas contra a covid-19. Atualmente, ela é professora na Universidade de Columbia e presidente do Instituto Questão de Ciência. Em uma entrevista exclusiva ao VIVA, Pasternak ressalta a importância da ciência na formulação de leis e discute as barreiras que dificultam a ascensão de mulheres na área científica, além do papel crucial de pesquisadores e da mídia na comunicação em saúde.
“É fundamental que as mulheres tenham com quem deixar seus filhos, pois ainda existe uma desigualdade que limita seu avanço na carreira”, afirma Pasternak, refletindo sobre os desafios que as mulheres enfrentam em equilibrar suas responsabilidades profissionais e familiares.
Desafios Persistentes para Pesquisadoras
Durante a conversa, a cientista destacou: “Celebramos inúmeras conquistas das mulheres na ciência, especialmente nas últimas décadas. Na área de pesquisa biomédica, o ingresso na carreira mostra uma divisão quase equilibrada, com cerca de 50% de homens e 50% de mulheres. No entanto, ao analisarmos a progressão nas hierarquias, o quadro muda, evidenciando uma diminuição no número de mulheres em posições de liderança”.
“O primeiro obstáculo é a ascensão na carreira”, conclui Pasternak. Ela menciona que, além da maternidade e falta de apoio social, como creches e a divisão do trabalho doméstico, existem também barreiras psicológicas. A cientista salienta que uma mulher em posição de liderança muitas vezes é rotulada como ‘agressiva’ quando, na verdade, ela apenas exerce a assertividade esperada de um líder.
Conselhos para Jovens Mulheres na Ciência
Questionada sobre que mensagem deixaria para jovens interessadas na carreira científica, Pasternak respondeu: “Nada é inalcançável. É vital estar atenta ao machismo estrutural, que muitas vezes pode se manifestar de maneira sutil, mas impacta significativamente”. Ela recomenda que as mulheres se sintam à vontade para discutir e confrontar comportamentos machistas no ambiente de trabalho, promovendo um diálogo saudável entre gêneros.
Desafios das Políticas Públicas e o Papel da Ciência
Além das barreiras enfrentadas pelas mulheres, Pasternak também abordou a relação entre ciência e políticas públicas. “A ciência está começando a ser reconhecida como uma ferramenta essencial para decisões no âmbito público. No meu curso ‘Ciência para Políticas Públicas’ na Universidade de Columbia, ensino que tanto cientistas quanto legisladores precisam entender a importância da evidência científica na formulação de leis”.
Ela ressalta que é crucial que a comunicação entre esses dois grupos ocorra, já que nem todos os cientistas têm formação em políticas públicas, assim como muitos legisladores não têm conhecimento suficiente em ciência. O objetivo, segundo Pasternak, é assegurar que as leis sejam fundamentadas em ciência e não em opiniões pessoais ou ideologias.
O Papel da Divulgação Científica
Recentemente, o surgimento de novos tratamentos, como a polilamina, trouxe à tona debates sobre a responsabilidade da ciência e da mídia na disseminação de informações. A cientista aponta que tanto as universidades quanto os pesquisadores têm o dever de conter a empolgação em compartilhar informações antes que sejam validadas pela comunidade científica.
“Os pesquisadores devem evitar gerar falsas expectativas, enquanto a indústria farmacêutica, embora legitimamente interessada na venda de medicamentos, também precisa agir com responsabilidade. A mídia, por sua vez, deve filtrar e analisar as informações antes de publicá-las, evitando a divulgação precoce de dados não confirmados”, destaca Pasternak.
Ela conclui afirmando que, embora tenha havido falhas iniciais na divulgação, houve uma rápida autorregulação por parte da mídia, com jornalistas alertando sobre exageros nas informações. Essas experiências ressaltam a importância de uma comunicação científica precisa e responsável.
