Início de um Novo Ciclo Agrícola
Com a chegada do inverno no Sul do Brasil, a cevada começa a se destacar nas áreas agrícolas, anteriormente dedicadas ao cultivo de trigo. Embora discreta, a cevada se mostra vital na ligação entre o campo e a indústria cervejeira, um dos setores mais significativos do país. O Brasil, que ocupa a terceira posição mundial na produção de cerveja, conta com a cevada como um insumo fundamental que representa uma oportunidade de renda para agricultores locais.
Na atual safra de inverno, a cevada se apresenta como uma alternativa viável para muitos produtores da Região Sul. Ela não apenas oferece uma fonte complementar de receita, mas também promove uma rotação eficiente de culturas ao longo do ano, otimizando o uso da terra. Em resposta à crescente demanda por cevada, a Ambev, líder no setor cervejeiro brasileiro, implementou uma nova política comercial destinada a apoiar a produção deste cereal.
Política de Incentivo da Ambev
A partir deste ano, a Ambev garantirá que metade do valor da colheita de cevada atenda a um preço previamente definido, enquanto a outra metade será ajustada conforme a cotação do trigo, que compete com a cevada em áreas produtivas. “Essa foi uma solicitação dos produtores, visto que o preço do trigo caiu consideravelmente no último ano. Estabelecemos o valor de R$ 75 por saca, enquanto o preço do trigo atualmente gira em torno de R$ 58 no Rio Grande do Sul”, explica Edivan Panisson, diretor de Suprimentos e Sustentabilidade da Ambev, em entrevista à CNN.
Panisson ressalta que a empresa já possui um programa de incentivo ao cultivo de cevada desde a década de 1980, principalmente em Passo Fundo, no Rio Grande do Sul, onde estão localizadas duas maltarias da Ambev. “O objetivo é reduzir a dependência de importação e otimizar os custos logísticos. O incentivo é direcionado a produtores que estão a até 200 quilômetros de nossas fábricas”, esclarece.
Modelo de Negócio e Assistência ao Produtor
A Ambev compromete-se a comprar a totalidade da produção de cevada na região e fornece suporte técnico aos agricultores em manejo e seleção de variedades. Além disso, a empresa adquire cevada que não atinge os padrões qualificados para a produção de cerveja, utilizando-a como forragem. O pagamento aos produtores ocorre no final de dezembro, após a colheita, que geralmente se dá entre outubro e novembro, com o plantio realizado entre maio e junho.
Em relação ao Paraná, a Ambev mantém uma parceria de longa data com a cooperativa Agrária, que possui uma planta em Guarapuava. Recentemente, a cooperativa anunciou a construção de duas novas maltarias em Campos Gerais. “O cultivo de cevada no Paraná é mais expressivo do que no Rio Grande do Sul e desempenha um papel crucial para nós. Portanto, garantimos a compra de todo o malte da cooperativa, o que agrega valor aos seus associados”, acrescenta Panisson.
Crescimento da Produção de Cevada
A expectativa é que, em 2026, o Paraná semeie cerca de 111,3 mil hectares de cevada, um aumento de 7,3% em relação ao ano passado, impulsionado pela expansão da indústria de malte. No Rio Grande do Sul, a área cultivada deverá atingir 34,5 mil hectares, representando um crescimento de 9,9%. Apesar de as pesquisas da Embrapa terem explorado o cultivo de cevada no Centro-Oeste, a necessidade de irrigação encarece a produção, tornando a prática inviável.
Embora a Embrapa acredite que haja 5 milhões de hectares nas regiões de Goiás, Minas Gerais, São Paulo e Distrito Federal com potencial para o cultivo de cevada, os desafios climáticos na Região Sul permanecem. “O clima excessivamente chuvoso durante a fase reprodutiva pode afetar a qualidade do grão, impedindo que atinja os padrões desejados para malteação”, afirma Aloisio Vilarinho, pesquisador da Embrapa Trigo.
O cultivo de cevada está concentrado principalmente nos estados do Paraná e Rio Grande do Sul, onde a colheita ocorre na primavera, um período que apresenta desafios climáticos. “As variações de temperatura, como ondas de calor seguidas de geadas, podem causar danos às lavouras nas semanas que antecedem a colheita”, complementa Vilarinho.
Desenvolvimento de Cultivares e Qualidade
Para enfrentar esses desafios, a Embrapa tem se dedicado a desenvolver cultivares mais resistentes a doenças e condições adversas. Em 2022, a Ambev obteve a homologação da cultivar ABI Valente, que promete ser 16% mais produtiva que as variedades atualmente em uso e possui grãos maiores e mais homogêneos. “Essa cultivar também é resistente a doenças fúngicas, o que auxilia na redução do uso de defensivos”, enfatiza a Ambev, que destaca que os produtores não precisam pagar royalties para utilizar esta nova variedade.
A ABI Valente se junta a outras duas cultivares já utilizadas pela Ambev, a ABI Rubi e a BRSCaue, desenvolvida pela Embrapa. Com essas inovações, a empresa busca não apenas aumentar a produção de cevada, mas também assegurar a qualidade do produto oferecido ao mercado cervejeiro.
