Uma Iniciativa Pioneira em Sustentabilidade
Localizada em São Caetano do Sul, na região metropolitana de São Paulo, a Enviromix desponta como referência ao desenvolver a primeira estação de tratamento de esgoto e produção de água de reúso voltada para operações aeroportuárias no Brasil. A instalação será no Aeroporto Internacional Val-de-Cans, em Belém do Pará, e tem como objetivo transformar a forma como esse importante ponto de conexão utiliza seus recursos hídricos.
A pequena empresa, com apenas 20 funcionários, está se destacando em meio a um leque de grandes projetos financiados pelo Eco Invest, um programa do governo federal que visa atrair investimentos estrangeiros para iniciativas sustentáveis no Brasil. Este programa, que conta com cifras que ultrapassam bilhões, oferece uma rara oportunidade para empresas de menor porte se inserirem no mercado verde.
Por meio do Eco Invest, a Enviromix conseguiu captar R$ 2,8 milhões junto ao Banco do Brasil. Para completar o investimento total de R$ 7,5 milhões, a empresa utilizará recursos próprios. Em um cenário onde o financiamento para transição verde é escasso, José Alves, gerente geral de ASG do Banco do Brasil, afirma que as pequenas empresas enfrentam desafios ainda maiores. “O crédito tende a ser mais caro e a análise dos projetos exige especialização,” explica.
Desafios e Oportunidades no Setor
A análise de crédito, segundo Alves, deve ser adaptada e focar nas previsões de receitas futuras, em vez de se basear apenas em faturamentos passados. O projeto da Enviromix chegou até ele através da equipe de negócios voltada para micro e pequenas empresas de Belém, evidenciando a relevância do apoio local.
Este é o segundo financiamento do Eco Invest na região Norte do Brasil. O primeiro foi destinado à Urban Incorporadora para um complexo residencial em Palmas (TO), que recebeu R$ 98,5 milhões para infraestrutura verde. “A modalidade de blended finance tem sido essencial para viabilizar projetos com potencial econômico significativo,” comenta Alves, referindo-se à estratégia que combina capital filantrópico ou subsidiado com investimentos privados.
Embora o custo do financiamento para a Enviromix não tenha sido divulgado, Alves assegurou que as condições foram mais favoráveis do que em operações convencionais. O contrato firmado inclui a venda da estação de tratamento à Noa Airports, administradora do aeroporto de Belém, que serviu como garantia para um empréstimo de R$ 700 mil.
Impacto e Sustentabilidade no Aeroporto
Com uma capacidade projetada para tratar cinco milhões de litros de água por mês, a estação terá um impacto significativo na gestão hídrica do aeroporto. O projeto não somente interrompe a prática de despejo de esgoto não tratado no rio Guamá, mas também promete substituir 79% da água potável consumida no aeroporto por água de reúso tratada, utilizada em atividades que não requerem água potável, como limpeza e irrigação.
“É uma questão de economia. O aeroporto é ideal para a implementação de sistemas de reuso, pois apresenta um alto potencial de aplicação em comparação a outras grandes instalações, como shopping centers,” diz Rafael Klein, diretor comercial da Enviromix. A escolha de Belém para a instalação é estratégica, visto que apenas 27% do esgoto da cidade foi tratado até 2025, de acordo com o Instituto Trata Brasil.
A história da Enviromix em Belém começou com a Avenida Tamandaré, um dos muitos canais poluídos da cidade que, por décadas, recebeu esgoto não tratado do shopping Pátio Belém. Essa realidade mudou em 2023, quando a empresa construiu uma estação de tratamento no shopping, demonstrando a eficácia de suas tecnologias ao pessoal do aeroporto. “Apresentamos uma solução eficaz, rápida, sem barulho e odores,” complementa Klein.
Inovações Tecnológicas e o Futuro do Setor
Desde sua mudança de foco em 2013, a Enviromix tem se dedicado a testes de reuso de água utilizando ozônio, um potente oxidante que elimina bactérias e contaminantes. O ozônio é gerado por meio de descargas elétricas de alta voltagem, que quebram moléculas de oxigênio, convertendo-as em O3, e é introduzido na água através de difusores.
A tecnologia da Enviromix permite a geração de ozônio dentro da própria estação, o que é uma inovação significativa. O ozônio é até 3 mil vezes mais eficaz contra certos patógenos que o cloro e apresenta um potencial de oxidação duas vezes superior. Apesar de os custos do ozônio serem mais altos, Klein acredita que é um investimento a longo prazo. Este projeto será a sétima estação construída pela Enviromix, que já conta com instalações em Brasília e no Rio de Janeiro.
Klein vê um futuro promissor para o setor de reuso de água no Brasil, mas ressalta a necessidade de aumentar a conscientização e a fiscalização. “Muitos ainda consideram o reuso um custo desnecessário em um país com água abundante. Nossa missão é mudar essa percepção,” finaliza.
