Estudo Revela Impacto da Cocaína em Salmões Selvagens
No ano de 2022, Jack Brand, um toxicologista ambiental da Universidade Sueca de Ciências Agrárias, conduziu uma pesquisa inusitada: ele administrou cocaína a salmões em um estudo que visava compreender os impactos da poluição causada por substâncias ilegais nos ecossistemas aquáticos. O intuito não era criar uma pegadinha, mas sim investigar as consequências desse tipo de contaminação na vida desses peixes.
Nos últimos anos, cientistas têm observado um aumento alarmante na contaminação de cursos d’água por cocaína, levando à necessidade de um exame mais detalhado sobre como os peixes, especialmente os salmões, estão lidando com essa poluição. O resultado do estudo, divulgado na revista Current Biology, trouxe à tona a descoberta de que os salmões, quando expostos à cocaína, nadam mais rápido e conseguem percorrer distâncias significativamente maiores em comparação aos peixes que não tiveram esse contato.
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Fonte: belembelem.com.br
Brand enfrentou dificuldades para obter as permissões necessárias dos órgãos reguladores locais para realizar a pesquisa, um processo que ele descreveu como “tedioso e exigente”. Ao final, a equipe conseguiu autorização para realizar a experiência em um criadouro de salmão do Atlântico no sul da Suécia. Os pesquisadores implantaram etiquetas de rastreamento em dezenas de peixes de dois anos e utilizaram cápsulas de liberação lenta, contendo cocaína e benzoilecgonina, um metabólito resultante da metabolização da droga.
Essas cápsulas foram projetadas para liberar quantidades diárias de cocaína ou benzoilecgonina que simulariam a exposição dos peixes a águas poluídas. Após esse processo, os salmões foram soltos no lago Vättern, um local conhecido por sua população de salmão do Atlântico para pesca recreativa. Durante oito semanas, os pesquisadores monitoraram os movimentos dos peixes.
Efeitos Surpreendentes na Comportamento dos Peixes
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Fonte: bahnoticias.com.br
Os resultados não foram surpreendentes, uma vez que os salmões expostos à cocaína mostraram um aumento na atividade, nadando mais do que os que não receberam a substância. No entanto, o que chamou a atenção dos cientistas foi o comportamento dos salmões que foram expostos à benzoilecgonina, que apresentaram um aumento ainda mais significativo na atividade, nadando quase o dobro em comparação aos peixes não expostos, e se afastando cerca de 12,2 quilômetros a mais do ponto de soltura.
Tomas Brodin, coautor do estudo, ressaltou que esses resultados indicam que avaliações de risco focadas apenas na cocaína podem subestimar os impactos ecológicos de seus produtos de decomposição. A cocaína e a benzoilecgonina são apenas dois componentes de uma longa lista de poluentes químicos que afetam os ambientes aquáticos devido à produção e consumo de drogas. Um estudo anterior, realizado em 2016 em Puget Sound, Washington, identificou a presença de substâncias como Prozac, Advil e Lipitor nos tecidos de jovens salmões chinook.
Possíveis Consequências para a Vida Aquática
Embora a pesquisa de Brand seja pioneira ao investigar o impacto da cocaína em salmões selvagens, um estudo anterior já havia revelado que salmões expostos a ansiolíticos demonstravam comportamento menos cauteloso, tornando-se mais suscetíveis a predadores. A questão que persiste é se o aumento na velocidade e nas distâncias percorridas pelos peixes expostos a substâncias como a cocaína é prejudicial.
James Meador, professor associado da Universidade de Washington e toxicologista ambiental, afirma que qualquer mudança na fisiologia ou comportamento dos peixes geralmente é considerada negativa. Ele enfatiza que os peixes estão altamente adaptados ao seu ambiente, e qualquer alteração pode afetá-los de maneira adversa, como um aumento no gasto energético. Meador descreve a presença de drogas e seus metabólitos nos ambientes aquáticos como um “desafio de engenharia ambiental”. Nos Estados Unidos, as estações de tratamento de esgoto lidam com cerca de 34 bilhões de galões de água diariamente, e a implementação de infraestruturas adequadas para remover compostos químicos indesejáveis seria um desafio caro e complexo, mas não impossível.
