Arte Pará 2026: expressão e ancestralidade na cena amazônica
A 42ª edição do Arte Pará abrirá suas portas em 5 de novembro de 2026 no Museu do Estado do Pará (MEP), promovida pelo Grupo Liberal. A mostra reúne 25 artistas que exploram a ancestralidade e a identidade na Amazônia, traduzindo histórias de vida em linguagens artísticas diversas, que vão da pesquisa à inovação tecnológica. O evento reflete a relevância cultural da região ao destacar uma produção que dialoga com as raízes e o presente, fruto da criatividade e do olhar atento de nomes como Val Sampaio, Lab Techné, Caio Paixão e Nazas.
Histórico e contexto do Arte Pará
O Arte Pará nasceu em 1982, idealizado por Romulo (1922-1986) e Déa Maiorana (1934-2026), dirigentes do Grupo Liberal que buscaram construir um espaço dedicado às artes produzidas no Pará e na Amazônia. A iniciativa foi pioneira na valorização da cultura regional e, em 2026, integra as celebrações dos 80 anos do Jornal e Portal O Liberal. A curadoria da edição é da artista visual Keyla Sobral, e o projeto conta com recursos da Lei Rouanet, além do patrocínio da Phebo e da Vale.
Val Sampaio e Lab Techné: ancestralidade indígena através da videoarte
Val Sampaio, professora e pesquisadora da Universidade Federal do Pará (UFPA), mantém há anos uma relação próxima com o Arte Pará, tendo participado da mostra por cinco vezes e conquistado o Grande Prêmio em 2007 ao lado de Mariano Klautau Filho. Pioneira da videoarte em Belém desde os anos 1990, Val desenvolve trabalhos que exploram o espaço-tempo e a conexão entre arte e natureza, utilizando mídias digitais e tecnologias acessíveis.
Para a edição de 2026, Val e o grupo Lab Techné, que reúne estudantes, professores e artistas, apresentam a videoarte inédita “GU.AI”. A obra retrata a ancestralidade indígena da cidade de Belém do Pará, resgatando a narrativa cosmogônica da origem do povo Tupinambá e a formação da urbe Mairi, território indígena invisibilizado pela história colonial. A videoarte destaca a chegada do cacique Guai — guerreiro Tupinambá — e os rituais ancestrais que expandem a percepção do mundo, combinando tecnologia e tradição para ativar memórias e territórios soterrados pela colonização.
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Nazas e a cultura paraense entre o afeto e o cotidiano
Thays de Nazaré, conhecida artisticamente como Nazas, tem 28 anos e é natural de Ourém. Sua produção artística dialoga profundamente com a cultura paraense, refletida inclusive em seu nome. Formada em Artes Visuais pela UFPA e mestranda em Artes no PPGArtes-UFPA, ela investiga as identidades e estéticas formadas pelo brega no Pará. Essa pesquisa atravessa sua obra, que combina pintura, escrita, colagens digitais, instalação e audiovisual.
Entre seus trabalhos, destaca-se a série “Faixas”, que reinterpreta as faixas usadas em festas de aparelhagens como dispositivos de afeto e pertencimento, trazendo frases românticas e melancólicas de músicas do ritmo brega. A proposta é transformar esses símbolos cotidianos em paisagens emocionais que ativam memórias territoriais e afetivas dos paraenses, criando uma conexão íntima com o público.
No Arte Pará, Nazas também apresentará “Caça-Palavras”, uma pesquisa tipográfica que traduz códigos linguísticos da cultura brega em poemas digitais visuais. O trabalho reflete amores vividos, sonhados e perdidos, explorando o amor como tema central dentro de um contexto de memória e transformação.
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Caio Paixão: arte, gênero e infância em perspectiva trans
Caio Paixão, 29 anos, traz para a arte suas experiências como homem trans e arte-educador. Formado em Licenciatura em Artes Visuais pela UFPA, atuou em espaços culturais de Belém e em cidades como Porto Alegre (RS), onde participou da Bienal do Mercosul como assistente de curadoria educativa.
Seu trabalho artístico utiliza materiais simples, como giz de cera, tinta guache e papéis, para abordar as relações de gênero na infância e as formas de resistência presentes nas brincadeiras. Caio investiga como as infâncias LGBTQIAP+ buscam espaços de identidade e liberdade, extrapolando as normas sociais em busca de expressão plena.
Na mostra, Caio apresenta uma obra que reflete sua experiência em espaços de lazer e prática esportiva, como a natação, onde questões de gênero emergem de forma evidente, especialmente em relação aos banheiros e vestimentas. Seu desejo é provocar reflexões sobre as limitações impostas pela sociedade às expressões de gênero e destacar a necessidade de espaços inclusivos para corpos dissidentes, garantindo saúde, lazer e alegria para todas as identidades.
