Aumento das Doenças Respiratórias em Tempos de Crise Climática
As consequências das mudanças climáticas, como o aumento da poluição, chuvas intensas, secas extremas e a intensificação de queimadas, têm se tornado cada vez mais evidentes. Embora esses fenômenos sejam amplamente reconhecidos, o impacto direto sobre a saúde pública é muitas vezes subestimado. Isso se reflete no agravamento de doenças crônicas pulmonares e respiratórias, que também contribuem para um aumento das taxas de mortalidade associadas a essas condições.
Nos últimos três anos, segundo a Organização Meteorológica Mundial, o planeta experimentou os verões mais quentes já registrados. Especialistas alertam que o Sistema Único de Saúde (SUS) não está devidamente preparado para a crescente demanda por atendimento decorrente desses eventos climáticos extremos. Desafios persistem, como a formação inadequada de profissionais de saúde sobre os efeitos do aquecimento global nas doenças crônicas e a dificuldade em realizar investimentos adequados em adaptações climáticas.
Entre as doenças crônicas mais impactadas pelas mudanças climáticas estão a asma, a doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC) e o câncer de pulmão. Danielle Bedin, pneumologista e embaixadora do Movimento Médicos pelo Clima, destaca que a poluição do ar é uma das principais responsáveis pelo agravamento desses problemas. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), cerca de 43% das mortes por DPOC e 29% das mortes por câncer de pulmão estão diretamente ligadas à poluição atmosférica.
O Papel da Poluição e das Condições Climáticas
Durante períodos de seca e calor, as queimadas se tornam mais frequentes, liberando partículas finas conhecidas como PM2,5, que penetram profundamente nos pulmões e podem causar câncer, além de agravar doenças respiratórias. A chuva normalmente ajuda a limpar essas partículas do ar, mas a crescente incidência de secas prolongadas, cada vez mais comuns, tem o efeito oposto.
“Quando olhamos para o horizonte e vemos aquela nuvem cinza, é exatamente isso que estamos respirando”, observa Bedin. O aquecimento também contribui para o aumento do ozônio troposférico, um gás que se forma quando poluentes se misturam com a luz solar em dias quentes e secos. Embora não cause doenças, esse gás pode irritar pessoas com condições respiratórias pré-existentes, levando a crises graves.
Um estudo da revista científica eBioMedicine, publicado em 2025, mostrou que a mortalidade por DPOC aumenta em torno de 4% a cada 1°C de elevação durante períodos de calor extremo. Nos centros urbanos, o fenômeno das ilhas de calor, onde ar quente e poluído fica aprisionado, intensifica ainda mais a situação, afetando também moradores de regiões semiáridas e áreas frequentemente atingidas por queimadas.
Impacto nas Comunidades Vulneráveis
As alterações climáticas não apenas afetam a saúde das populações, mas também ampliam a exposição a alérgenos. Um relatório da OMS de 2025 revela que o aumento do CO2 e das temperaturas prolonga o período de floração das plantas, intensificando as reações alérgicas. Além disso, chuvas intensas e concentradas, que provocam enchentes, contribuem para o crescimento de fungos. Após inundações, a proliferação de fungos no ambiente pode causar infecções respiratórias, especialmente entre aqueles que já apresentam doenças crônicas.
Os grupos mais vulneráveis incluem crianças, idosos e trabalhadores expostos a condições climáticas adversas, além de populações em áreas remotas ou periféricas. Beatriz Oliveira, pesquisadora da Fiocruz Piauí, informa que em regiões da Amazônia, as crianças que respiram fumaça das queimadas já demonstram redução da capacidade pulmonar, mesmo sem diagnóstico de asma, e isso se agrava em crianças que já têm a doença.
Desafios do Sistema de Saúde
Ainda que os dados mostrem uma clara correlação entre a mortalidade e as mudanças climáticas, muitos profissionais de saúde não conseguem conectar os sintomas dos pacientes às condições ambientais. Segundo Bedin, é crucial que os médicos compreendam que a exposição a altas temperaturas pode exacerbar doenças pré-existentes.
Além disso, a falta de integração entre os setores de saúde, meio ambiente e defesa civil é uma barreira significativa. Oliveira ressalta que, embora a monitorização da qualidade do ar seja realizada por órgãos ambientais, essas informações não chegam de forma estruturada ao sistema de saúde. Até agora, apenas o Rio de Janeiro estabeleceu um sistema integrado de alerta.
Com 95% dos investimentos em pesquisa voltados para a mitigação das emissões de gases, a adaptação à realidade climática ainda é uma necessidade urgente. Fátima Rodrigues Fernandes, presidente da Associação Brasileira de Alergia e Imunologia, também aponta a escassez de médicos especialistas como um agravante no diagnóstico de doenças crônicas respiratórias.
Em resposta às crescentes demandas, o governo federal lançou em 2025 o programa Adapta SUS, que visa preparar o setor de saúde para as mudanças climáticas, com metas a serem cumpridas até 2035. No entanto, a implementação desses planos ainda enfrenta desafios significativos, como a dificuldade das cidades e estados em desenvolver suas estratégias de adaptação climática.
Embora o Ministério da Saúde tenha disponibilizado um guia sobre mudanças climáticas para profissionais da área, resta a dúvida se o sistema de saúde estará verdadeiramente preparado para enfrentar as futuras crises, especialmente em situações como as inundações do Rio Grande do Sul.
