A importância do couro na economia paraense
Antes de se transformar em sapatos, bolsas, bancos de carro ou revestimento de móveis, o couro percorre uma cadeia produtiva que começa ainda no frigorífico. No Pará, essa matéria-prima é um subproduto da pecuária, derivado da pele bovina do mesmo gado abatido para a produção de carne. Com um rebanho que é o segundo maior do Brasil, o estado responde por mais de 10% da disponibilidade nacional de peles voltadas à indústria de couros. No primeiro semestre de 2026, o Pará exportou US$ 13 milhões em couros e peles, conforme dados exclusivos do Centro das Indústrias de Curtume do Brasil (CICB) fornecidos ao Grupo Liberal.
Como o couro é produzido na região
A cadeia do couro movimenta diversos setores, envolvendo frigoríficos, curtumes, e indústrias de calçados, automóveis, móveis e vestuário, além do segmento de produtos derivados, como gelatina, colágeno e peptídeos bovinos. Apesar dos avanços tecnológicos e da crescente demanda por rastreabilidade ambiental, o setor ainda enfrenta o desafio de agregar maior valor ao produto e se adequar às mudanças no comportamento do consumidor.
Uma dúvida frequente é se existem animais criados exclusivamente para a produção de couro. A resposta é negativa. O couro utilizado na indústria provém do mesmo gado abatido para consumo.
“O couro que usamos aqui no curtume vem de frigoríficos inspecionados da região, é o mesmo material abatido para carne, ou seja, é um subproduto do boi”, explica William Novaes, diretor de um curtume localizado em Icoaraci, distrito de Belém.
Após o abate, a pele é encaminhada ao curtume, onde passa por processos rigorosos de lavagem, limpeza, remoção de pelos, conservação e separação das camadas para se transformar em matéria-prima para a indústria. “No curtume, a pele é lavada e descarnada para retirar resíduos de carne. Em seguida, passa pelo processo de caleiro, que remove os pelos e conserva o material para evitar desgaste”, detalha Novaes.
Depois, uma máquina divide o couro em duas partes: a camada superior, que segue para a produção do couro acabado, e a inferior, destinada principalmente à fabricação de gelatina, colágeno e outros derivados.
“A parte superior serve para a produção do couro final. A inferior é destinada à fabricação de gelatina, usada em produtos como jujuba, chiclete, peptídeos bovinos e colágeno”, explica o diretor.
Rebanho e potencial econômico do Pará
O desempenho da indústria do couro está diretamente ligado ao tamanho da pecuária no Pará. Segundo o CICB, com base no Beef Report 2026 da Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (ABIEC), o estado possui cerca de 19,8 milhões de cabeças de gado, ficando atrás apenas de Mato Grosso.
São Félix do Xingu é destaque, com um rebanho local estimado em 1,7 milhão de animais, o que representa um crescimento superior a 20% na última década.
Com um abate anual estimado em 5 milhões de cabeças, o Pará responde por mais de 10% da disponibilidade nacional de peles bovinas para a indústria. No entanto, nem toda essa matéria-prima é processada dentro do estado.
“Como o Pará tem um dos maiores rebanhos do país, uma grande parte do mercado é daqui”, afirma Novaes.
Exportações e mercados internacionais
No primeiro semestre de 2026, o Pará ficou na 10ª posição entre os estados brasileiros exportadores de couro e peles, com vendas que somaram US$ 13 milhões e 19 milhões de quilos do produto.
Em 2025, os principais destinos do couro paraense foram a China, Itália, Nigéria, Camboja e Vietnã. A China liderou as importações, com US$ 14 milhões em compras e 21 milhões de quilos líquidos importados.
Outros países consumidores incluem Alemanha, Índia, Panamá, Turquia, Togo, Espanha, Taiwan e Indonésia. Juntos, esses dez mercados adquiriram US$ 22,8 milhões em couro paraense e 36,7 milhões de quilos líquidos em 2025.
O produto exportado está concentrado principalmente no couro em estágio intermediário de processamento. Foram comercializados US$ 19 milhões em couro wet blue — etapa após o curtimento inicial — e US$ 3,8 milhões em peles salgadas.
No mercado interno, a indústria mantém participação significativa. Segundo Novaes, cerca de 40% da produção do curtume de Icoaraci é destinada à exportação, enquanto 60% abastece compradores nacionais.
“Atualmente, 40% da produção é para exportação e 60% para o mercado interno, que atende fábricas de calçados, vestuário, setor automotivo e outros segmentos”, afirma.
Segmentos consumidores e produtos derivados
O couro é usado em diversos setores industriais, entre eles calçados, bolsas, bancos automotivos, móveis e vestuário. Além disso, os derivados da pele têm relevância econômica significativa.
“O setor que mais consome é o de proteínas. Cerca de 60% do nosso mercado é voltado para a produção de colágeno”, destaca Novaes.
Desafios diante do mercado vegano e exigências ambientais
Nos últimos anos, o crescimento do mercado vegano e a preocupação ambiental têm gerado questionamentos sobre o uso do couro animal. Para a indústria, é fundamental esclarecer que o couro não é a razão do abate bovino, mas sim um aproveitamento de um subproduto da cadeia de produção de carne.
“Houve um impacto, pois muitas pessoas optam por não usar couro animal, mas a pele provém do abate para carne. Ninguém abate um boi apenas pelo couro. Aproveitamos esse resíduo e damos a ele uma destinação correta”, afirma Novaes.
Ele ressalta ainda que o couro legítimo oferece vantagens claras em resistência e durabilidade.
“Sua durabilidade é cerca de cinco vezes maior que a do sintético. Produtos como cadeiras, bancos de carro e bolsas de couro legítimo podem durar 20 a 30 anos, enquanto o sintético começa a se deteriorar após cerca de dois anos”, compara.
Rastreabilidade e sustentabilidade como exigências do mercado
Além da qualidade, os compradores internacionais têm aumentado as demandas por rastreabilidade da matéria-prima e conformidade socioambiental.
De acordo com o CICB, os principais desafios da indústria curtidora envolvem rastreabilidade, sustentabilidade, oscilações do mercado internacional e a necessidade de agregar valor aos produtos.
No curtume de Icoaraci, a rastreabilidade já é prática comum na produção.
“Toda a nossa matéria-prima é 100% rastreável, tanto na compra quanto na venda para as fábricas”, destaca Novaes.
A empresa também possui certificação internacional de sustentabilidade e controle da cadeia produtiva.
“Nosso curtume detém o certificado LWG Ouro, que atesta rastreabilidade e sustentabilidade internacional”, conclui.
Potencial e desafios futuros para o setor do couro no Pará
Com uma das maiores concentrações de gado do país e uma presença crescente no mercado externo, o Pará mantém uma posição estratégica na cadeia produtiva do couro. O próximo desafio do setor, segundo o CICB, está menos relacionado à ampliação da oferta de matéria-prima e mais à capacidade de transformar esse potencial em produtos de maior valor agregado, com eficiência e sustentabilidade.
