Amazônia e a Indústria: O Caroço do Açaí como Fonte Energética Sustentável
O compromisso global de zerar emissões líquidas de carbono até 2050 tem impulsionado setores industriais a buscarem alternativas para reduzir seu impacto ambiental. No Pará, maior produtor mundial de açaí, esse desafio tem uma solução própria: o caroço do fruto, tradicionalmente descartado como resíduo, está sendo reaproveitado como biomassa para alimentar caldeiras industriais. Essa iniciativa representa uma mudança significativa para a indústria pesada local, que busca reduzir a dependência de combustíveis fósseis como carvão mineral e óleo combustível.
Barcarena e a Refinaria que Inova com Biomassa do Açaí
Na cidade de Barcarena, a aproximadamente 20 quilômetros de Belém, uma das maiores refinarias de alumina do mundo já incorpora o caroço do açaí em sua matriz energética. Atualmente, entre 20% e 25% do combustível usado nas caldeiras é composto por essa biomassa, com a meta de avançar para 100% de utilização do resíduo amazônico.
Segundo Sérgio Ferreira, gerente-geral de manutenção da refinaria, a conversão completa de uma caldeira demandaria cerca de 285 mil toneladas de caroço de açaí por ano, possibilitando a redução de até 400 mil toneladas de dióxido de carbono (CO₂) emitidas anualmente. O material é fornecido por cooperativas e empresas locais, que cuidam da coleta, beneficiamento e entrega, sendo misturado ao carvão mineral diretamente nas correias transportadoras.
Estratégias para Neutralidade de Carbono e Uso de Energia Renovável
Essa ação integra um plano maior da refinaria para diminuir suas emissões em 30% até 2030, com a ambição de alcançar a neutralidade de carbono em 2050. No Pará, a meta é reduzir a pegada de carbono na produção de alumina de 0,66 para 0,45 tonelada de CO₂ por tonelada produzida. Considerando que são necessárias duas toneladas de alumina para gerar uma tonelada de alumínio, essa redução tem um efeito multiplicador na cadeia produtiva do metal.
O plano ainda inclui a substituição do óleo combustível por gás natural e a implantação de caldeiras elétricas alimentadas por fontes renováveis, como energia solar e eólica, reforçando o compromisso com uma matriz energética mais limpa e sustentável.
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Fonte: vitoriadabahia.com.br
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Crescimento do Açaí e o Desafio dos Resíduos no Pará
De acordo com dados da Fundação Amazônia de Amparo e Pesquisa do Pará (Fapespa), a produção de açaí no estado passou de 150 mil toneladas em 1987 para cerca de 2 milhões de toneladas em 2024, um crescimento de 14 vezes em 38 anos. O Pará concentra 89,5% da produção nacional, movimentando quase R$ 9 bilhões em 2024, o que representa 93,8% da riqueza gerada pelo setor no Brasil.
Porém, essa expansão gerou um desafio ambiental: o descarte do caroço do açaí, que corresponde a cerca de 85% do fruto após o processamento. Atualmente, o estado produz mais de 1,7 milhão de toneladas anuais desse resíduo, que, se não destinado adequadamente, constitui um passivo ambiental significativo.
Potencial Energético e Redução de Emissões com o Caroço de Açaí
Se todo o volume de caroço gerado no Pará fosse utilizado como biomassa, seria possível alimentar aproximadamente seis caldeiras do porte da refinaria de Barcarena, o que poderia evitar até 2,4 milhões de toneladas de CO₂ por ano. Essa substituição representa um avanço importante na descarbonização da indústria local, antecipando as metas globais previstas para 2030.
Embora as caldeiras não sejam a única fonte de emissões da operação industrial, o aproveitamento do caroço do açaí coloca o Pará em posição estratégica na transição para uma matriz energética mais sustentável na indústria de base mineral.
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Fonte: omanauense.com.br
Bioenergia Amazônica: Impulso Econômico e Geração de Empregos
Além dos benefícios ambientais, a cadeia produtiva da biomassa do açaí vem criando novas oportunidades econômicas. Empresas que atuam na coleta, beneficiamento e comercialização do caroço já movimentam setores de logística, industrialização e comércio, gerando empregos diretos e indiretos para mais de 100 pessoas.
O agrônomo e empresário Marcos Tadeu Bragatto, que iniciou pesquisas sobre o poder calorífico do caroço após observar o descarte irregular nas ruas e rios de Belém, destaca que a biomassa produzida pode substituir combustíveis como carvão mineral, coque de petróleo, óleo BPF, GLP e gás natural, contribuindo para uma expressiva redução das emissões e da pegada de carbono.
Desafios Técnicos para a Expansão da Biomassa do Açaí
Apesar das vantagens, o uso industrial do caroço do açaí ainda enfrenta desafios técnicos. Seu poder calorífico é cerca de 60% do carvão mineral e exige controle rigoroso da umidade para garantir estabilidade operacional. Além disso, o resíduo precisa passar por processos de beneficiamento antes de ser utilizado, e a adaptação das caldeiras demanda tempo e investimento.
Sérgio Ferreira ressalta que o carvão mineral possui uma infraestrutura consolidada com mais de 200 anos, enquanto o uso do caroço do açaí ainda está em fase de desenvolvimento e aprendizado. Um dos fornos adaptados na refinaria levou mais de um ano para alcançar estabilidade operacional contínua. As pesquisas sobre o potencial energético do caroço começaram em 2011, em parceria com universidades, demonstrando o comprometimento com a inovação sustentável na região.
