Estabilidade do pão em meio à crise global do trigo
O preço do pão francês em Belém registrou uma alta moderada de 0,95% entre janeiro e junho deste ano, conforme os dados oficiais de inflação divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Esse reajuste discreto ocorre em um cenário complicado para o trigo no Brasil, agravado por desafios geopolíticos que encarecem a importação do grão. Para conter os impactos no bolso dos paraenses, o setor de panificação da capital paraense tem adotado diversas estratégias, que vão desde negociações rigorosas com fornecedores até a redução do quadro de funcionários.
Indicadores de inflação e o impacto nos panificados
Segundo o IBGE, em junho, o preço do pão francês em Belém subiu 0,68% em relação a maio, acumulando uma variação de 3,60% nos últimos 12 meses. No grupo geral de panificados — que inclui pães, biscoitos e bolos — a alta foi de 0,62% no mês, 1,11% no acumulado do primeiro semestre e 3,51% em um ano. Esses números indicam uma relativa estabilidade em comparação com o cenário nacional, marcado por restrições na produção de trigo.
Relatórios divulgados recentemente pelo IBGE e pela Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) revelam que o Brasil terá a menor área plantada de trigo em nove anos. A redução, estimada em cerca de 24%, é atribuída aos altos custos de produção e aos riscos climáticos relacionados ao fenômeno El Niño. A expectativa é que a colheita nacional caia para seis milhões de toneladas, o que deve aumentar a necessidade de importações recordes do produto.
Dependência do Pará e desafios internacionais
O Pará depende quase totalmente do trigo importado, seja do exterior ou transportado via cabotagem. Essa dependência expõe o estado a dois fatores críticos: a valorização do dólar frente ao real, que eleva o custo das importações, e a redução da oferta interna devido à quebra de safra na Região Sul do país. Além disso, o mercado internacional enfrenta novos obstáculos logísticos provocados por conflitos entre 7 e 11 de julho que afetaram o Mar de Azov, rota essencial para o trigo russo, além de tensões envolvendo os Unidos (EUA) e o Irã. Esses eventos elevaram o preço do trigo para US$ 6,45 por bushel na Bolsa de Chicago, pressionado ainda pela pior quebra de safra norte-americana desde 1970.
Sindipan-PA atua para mitigar impacto nos preços
Diante desse cenário complexo, o Sindicato da Indústria de Panificação e Confeitaria do Pará (Sindipan-PA) monitora atentamente o mercado para evitar que aumentos significativos cheguem ao consumidor. Alex Batista, presidente do Sindipan-PA, ressalta que o sindicato acompanha desde a redução da safra brasileira até mudanças políticas, como a possível adoção da escala 5×2, que pode elevar o custo da mão de obra e impactar o preço final do pão.
“Estamos em constante diálogo com os moinhos para entender o cenário e negociar a manutenção dos preços do trigo, evitando que o aumento seja repassado de forma intensa às padarias e, por consequência, ao consumidor final”, detalha Batista. Ele destaca que os custos da mão de obra e da energia elétrica são fatores decisivos para a evolução dos preços nos próximos meses. Para reduzir despesas, o sindicato incentiva projetos de energia limpa e sustentável no setor.
Panificadoras adotam cortes para controlar custos
Na prática, as padarias de Belém enfrentam dificuldades para manter a operação sem repassar os aumentos nos custos. Samuel de Carvalho, chef padeiro do Armazém 25, confirma que os insumos têm sofrido constantes altas e que a principal alternativa para evitar reajustes no preço do pão tem sido a redução do quadro de funcionários.
“A gestão de corte de custos é a única saída para manter o negócio funcionando sem repassar as altas. Só em maio, reduzimos em 8% o número de colaboradores”, revela Carvalho. Ele acrescenta que o principal desafio não está apenas no custo da matéria-prima, mas na queda do poder de compra do consumidor, já que os preços praticados estão no limite da competitividade.
Consumidores percebem estabilidade no preço do pão careca
Apesar das pressões sobre insumos e mão de obra, consumidores em Belém afirmam não notar mudanças no preço do pão francês, conhecido localmente como “pão careca”. A aposentada Maria da Silva relata que compra o produto quase diariamente e que o preço se mantém estável. “Eu sempre compro dois pães e até agora o preço está o mesmo”, conta.
O motorista Mário Filho também destaca que prefere comprar em locais de confiança e não se preocupa tanto com variações de preço. “Eu não procuro saber o preço, compro onde gosto e acho que varia de lugar para lugar, mas não faço pesquisa”, afirma.
Esses relatos confirmam o esforço do setor para garantir estabilidade no preço do pão em Belém, mesmo diante das dificuldades impostas pela crise global do trigo e pelas condições econômicas regionais.
